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ESPELUNCA - blogue de ademir assunção


SÁBADO EM PORTO ALEGRE



Escrito por ademir assunção às 12h55
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SUPERBOY

A cada dia nesse planeta a gente descobre algo novo, imprevisível, inacreditável. Eu, por exemplo, acabei de descobrir que meu filho Yan é o verdadeiro Superboy.

 

Porto Alegre pode dormir tranquila.

 



Escrito por ademir assunção às 18h12
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PRÓXIMOS PASSOS

 

Viajo amanhã para Porto Alegre. Vou passar nove dias com meus filhos. E lançar os dois números recentes da Coyote:

 

 

Pra quem fica em São Paulo, segunda-feira (21) tem leitura da nova peça do poeta e dramaturgo Sérgio Mello, no auditório do Masp, às 19h30, na faixa (dá só uma olhada no desenho do Carlos Carah):

 

 

E quem ainda não viu, últimas chances. Não perca:

 



Escrito por ademir assunção às 20h56
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PAULO STOCKER



Escrito por ademir assunção às 12h53
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FAVELÃO NO PARAÍSO HIGHTECH

 

“O contraste com a década de 60 é total: há quarenta anos a guerra ideológica entre as duas potências gerou idéias para abolir a pobreza do mundo e reabrigar os favelados. E hoje, o que temos? Um Pensamento Único e Um Favelão Estratosférico no lugar do que chamávamos mundo, emprego e futuro nenhum, aliás o futuro é atualmente o lugar mais perigoso da existência, melhor não pintar por lá em hipótese alguma!”

 

Márcia Denser, em sua coluna semanal no Congresso em Foco. Para ler o texto inteiro, aqui.



Escrito por ademir assunção às 15h58
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PRODUÇÃO URGENTE

 

O mundo dá voltas à volta de Piccadilly Circus
Buscando a nota exótica que falta
Ao seu traje blasé televisivo

O mundo dá tratos à bola
À mesma que destrata
Pisando na miséria imediata

Contrata para produção urgente
Um negro bem dotado
E um latino quase inteligente

O mundo é dos vivos
O mundo é dos bancos
E os bancos dos mendigos

O mundo é de loucos
Que mundos não têm dono
E só somos vencidos pelo sono

 

O mundo é do novo

E o novo dos antigos

O mundo é quem sobrar no fim da noite

Dos amigos

 

Canção de Nei Lisboa. No cd Cena Beatnik (2001).



Escrito por ademir assunção às 11h52
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EDUARDO RODRIGUES

 

Haicais animados de Eduardo Rodrigues. Pílulas de sofisticada simplicidade. Como esse:

 

não adianta esperar

o tempo não passa duas vezes

no mesmo lugar

 

Com imagens e trilha sonora. No Cronopinhos. Vai lá.



Escrito por ademir assunção às 11h30
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PAULO STOCKER



Escrito por ademir assunção às 10h25
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PEQUENA CRÔNICA PARA O REDENTOR

 

 

"Eu vejo o seu Cristo, Rio / Que olha tão longe além / Com os braços

sempre abertos / Mas sem proteger ninguém". Cazuza.

 

Voltei do Rio de Janeiro com algumas frustrações e um furo no pé. Foda-se. As frustrações eu jogo pela janela e espero que caiam bem na cabeça do vizinho escroto que deixa o pobre cachorro preso no fundo da casa dia e noite. O furo no pé me custou uma injeção anti-tetânica, doída pra caralho (se a enfermeira me avisasse que doía tanto, eu tomava na bunda (ops! a injeção), sem o menor pudor).

 

Explico: um filho da puta deixou um pedaço de madeira com dois pregos enferrujados bem numa calçada da Tijuca e eles foram se alojar justamente na sola do meu pé. Claro, poderia ser pior. Poderia ser uma bala perdida alojada no crânio. Somando e subtraindo, até que tive sorte. Pode ser também que o cara não seja um filho da puta. Pode ser apenas um merda dum displicente. Mas displicências como essa podem custar a vida de uma pessoa. Sei que a vida não vale uma titica nesse grande shopping center de almas sugadas chamado, nas conversas bem-letradas, de “mundo contemporâneo”. De qualquer modo, os pregos na sola do pé doeram. Doeu também descobrir que a Unimed Paulistana, a qual pago mensalmente, não autoriza os hospitais da rede particular a ministrar vacinas anti-tetânicas em pobres diabos a beira de uma infecção generalizada. Foi o que o médico do Hospital Iguatemi, na avenida Francisco Morato, bairro Butantã, me falou, de outro modo. Ele disse que o Hospital Iguatemi não tem vacina anti-tetâtica. Simplesmente isso. Tá bom. Olhe bem na minha testa e veja se não está escrito em neon piscante: OTÁRIO. Está, não está? Na sua testa também.

 

Pago 380 paus por mês para uma porra de um convênio médico que me manda tomar vacina anti-tetânica num posto de saúde público! onde, aliás, fui muito melhor atendido pelas simpáticas enfermeiras que não possuem um diploma de “doutora” pendurado na parede. Em resumo: quem é pior, o filho da puta que deixou o pedaço de madeira com dois pregos enferrujados bem numa calçada da Tijuca ou os mafiosos da Unimed Paulistana que me negam uma vacina anti-tetânica, ao custo de 380 paus por mês? Os mafiosos da Unimed Paulistana pagam uma grana preta para estampar seu logotipo na bunda de jogadores de futebol e negam a seus “clientes” (como eles chamam) uma mísera vacina anti-tetânica!!! No fundo, gênios ou medíocres, somos todos enganados por máfias cada vez mais escrotas.

 

Ah, sim: o médico do Hospital Iguatemi me falou para tomar a vacina e ficar de olho no meu pé. Se o machucado começar a verter pus, se o pé começar a apodrecer ou se a perna latejar, mandou-me voltar imediatamente ao hospital. Sim, doutor, voltarei. Quem sabe depois de duas horas de espera o hospital gentilmente me ampute o pé ou a perna, ao custo de ocasião de 380 paus por mês. Não é uma barbada?

 

Bom, mas também voltei do Rio de Janeiro com a agradável confirmação de que ainda tem duas dúzias de gente nesse mundo que vale a pena. Os porres e as conversas madrugadas adentro com os amigos Paulo de Tharso, Marcelo Montenegro, Mário Bortolotto, Régis dos Santos e com minha mulher (ela adora que eu a chame assim, embora saiba que não acredito em casamentos) Dani Angelotti, o almoço com Toninho Vaz em Santa Tereza, o bife a parmegianna com Leopoldo Nunes na rua do Lavradio, o frenesi de Chacal no Teatro Sérgio Porto, o porre na Lapa com Camila Lopes, Carola, Fernanda D’Umbra, Edinho Kumasaka, Priscila, Luana, Pierre e a cambada toda do Cemitério de Automóveis, e o texto do Mário no Teatro Ziembinski pairando como uma saída possível sobre minha cabeça, tudo isso compensa o descaso de um ou outra narizinho empinado, que não sabe a loucura que é encarar a vida do jeito que duas dúzias de malucos encaram, nem quando tudo começou, nem como tudo foi feito até agora, muito menos o poder de explosão que temos nos bolsos, ao lado do maço de cigarros e da garrafinha mocozada de conhaque.

 

Foda-se.

 

E então eu volto e leio duas entrevistas do caralho. E lembro que as duas dúzias de malucos que fazem essa joça valer a pena podem ser, afinal, três.

 

Aqui e aqui.

 

E fico sabendo que Jotabê Medeiros foi despejado de seu antigo endereço virtual, mas já armou seu barraco em outro lugar. Aqui. E ele escreveu sobre o escritor Ricardo Guilherme Dicke que morreu semana passada. E Jotabê escreveu o seguinte: “ele morreu na quarta-feira, quase esquecido, na cuiabá que escolheu para ficar longe do eixão, das megalópoles arrogantes. “as fodidas cidades onde impera o deus lucro e outros deuses irrelevantes” , disse.” Não conheço os livros de Dicke. Pelo que me consta, não saíram nem pela Record, nem pela Objetiva, nem sequer pela L&PM. Fiquei a fim de conhecer Toada do Esquecido & Sinfonia Eqüestre. 

 

No mais, se cuidem. Muito cuidado com os pregos enferrujados e com os mafiosos da Unimed Paulistana.



Escrito por ademir assunção às 23h28
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VIA DUTRA

 

Estou de saída para o Rio de Janeiro. Vou cuidar da vida (algumas reuniões) e acompanhar a troupe do Cemitério de Automóveis (Dani, minha namorada, é produtora desses malucos habilidosos).

 

 

Essa semana rola a peça Efeito Urtigão, com Mário Bortolotto e Paulo de Tharso (no palco), Marcelo Montenegro (na luz e som) e Régis dos Santos (na técnica).

 

 

E pra quem fica, tem show de Edvaldo Santana no Festival de Inverno de Paranapiacaba. No sábado (12). O blues vai rolar solto. E na outra quinta (19), Edvaldo faz show no Ocidente, em Porto Alegre.

 

 

Também tem Desconcertos com Marcelo Barbão, na Casa das Rosas.

 

Hasta la vista.



Escrito por ademir assunção às 17h53
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ALICE RUIZ E A GRANDEZA DO HAICAI

A poeta Alice Ruiz vai dar uma oficina no B_arco sobre um dos assuntos que ela conhece muito: haicais.

Os freqüentadores dessa espelunca provavelmente conhecem Alice Ruiz. Em todo caso: ela é uma das grandes poetas brasileiras da atualidade. Vários livros publicados e parcerias antológicas com Itamar Assumpção, Zeca Baleiro, Alzira Espíndola, Arnaldo Antunes, Blindagem e vários outros.

Mais informações sobre a oficina aqui.

Abaixo trechos de uma das entrevistas que fiz com Alice, no verão de 1997 (que também está no meu livro de entrevistas, a espera de resposta de algumas editoras):

Muitos críticos vêem o haicai como uma poesia menor, fácil, até por ser um poema curto, de apenas três versos. O que você acha desse tipo de visão?

A maior parte da crítica não está preparada para entender o haicai. Acho até um gesto de coragem lançar um livro de haicais hoje, porque há todo um preconceito formado, justamente com esse pressuposto de que é uma poesia fácil, quando, na verdade, você tem que ter um depuramento interior nada simples de atingir. Uma das coisas mais complexas de se atingir é exatamente a simplicidade.

 

No seu livro os temas são uma lesma no vidro, a morte de um grilo, um vento de primavera. Essa temática de aparência tão banal não pode soar ingênua ante os olhos do Ocidente?

Não acredito em coisas grandes a não ser como soma de pequenas coisas. A substância da nossa vida é justamente esse cotidiano, essa lesma no vidro, esse sapo que espia atrás da porta, é o que está acontecendo aqui e agora. É isso o que a cultura oriental nos ensina: estar atento ao que está acontecendo aqui e agora. Não existe nada maior do que o momento exato em que estamos. Por outro lado, essa forma de poesia aperfeiçoa aquilo que o poeta deve ser. A poesia está acontecendo o tempo inteiro em volta de nós. Poeta é quem sabe captar e registrar.

 

Talvez muitos se perguntem: com temas tão banais e uma forma tão reduzida, é possível se fazer grande poesia?

Grande poesia... isso não me preocupa. Esses grandes temas, entre aspas, que são as grandes abstrações, na verdade são uma forma limitada de se relacionar com o universo, como se a única forma de captar a realidade fosse através do intelecto, do raciocínio. E essa pequena poesia, entre aspas, tem a grandiosidade de procurar o máximo de síntese e extrair a grandeza do pequeno, do cotidiano. Em todos os planos, através da sensorialidade, da intuição, do sentimento também. Não somos só intelecto. Nós somos um todo.

 

Na poesia moderna brasileira, em Vinícius, em Bandeira, há um olhar ao cotidiano, à morte do leiteiro, por exemplo, como no poema de Drummond. Mas é raro voltar-se os olhos para um cotidiano ainda mais micro, mais humilde, como a morte de um grilo, e extrair poesia daí. Essa sensibilidade é inata aos orientais?

Faz parte da cultura deles, principalmente dos zen-budistas. Certa vez perguntaram a (Jorge Luis) Borges a respeito de seu interesse pela cultura japonesa e ele disse: "eles têm uma coisa que nós no ocidente não temos: o respeito". Esse respeito por tudo o que vive, mesmo pelo pequeno, pelo ínfimo. Esse olhar que aceita todas as existências. É um olhar que não fica procurando a grandeza nas altas esferas e sim na matéria que está em torno de nós, em tudo aquilo que tem energia em torno de nós, como um pequeno grilo, ou o olho de um cão.

 

Um dos pressupostos do zen é o da grata aceitação...

Por todos os estados do zen, sou apaixonada em especial pelo da grata aceitação. Acho o mais grandioso, o que resume todos os estados. Para ter grata aceitação é preciso, antes de mais nada, aceitar que as coisas têm a duração que elas têm, e não aquela que desejamos que tenham. Com isso, já se exercita o desapego do eu.

 

Existem muitos poetas que se interessam pelo haicai apenas como uma forma poética, tirando todo esse lado de vivência interior que ele exige. O que você acha desse tipo de interesse?

Bashô diz que quando o espírito está embebido de haicai, ele expressa as coisas tão bem como se elas próprias estivessem se expressando através dele. Quando ele procura apenas a beleza formal do arranjo das palavras, demonstra somente a vulgaridade de um espírito que não busca a verdade.



Escrito por ademir assunção às 13h20
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UM POEMA

 

Sempre gostei da expressão “hoje não tem sopa na varanda de Maria”, que os tropicalistas usavam. Pois é, hoje não tem sopa. Tem um poema escrito há nove anos (meio bolero, meio Dolores Duran), ainda inédito em livro! Acho que está na hora de lançar um novo volume de poemas. Quem vai querer?

 

 

 

O AMOR SE VAI PELA MESMA VIA QUE VEM

 

                                    Uma coisa invisível está perecendo no mundo,

                                    um amor não maior que uma música.

 

                                                                        Jorge Luis Borges

 

1º movimento

 

tudo muito rápido toda

tímida capto todo

torto rapto

um breve cintilar de lábios

da cor escarlate do mesmo esmalte

das unhas que laceravam a pele do peito enquanto

os olhos diziam que eu era tudo

e que nada nos separaria

 

 

2º movimento

 

toda boca

úmida toda loba

cínica toda mímica mínima

todo espanto tanto encanto pra tudo

terminar em nada

esse nada que nada sara e me atira

outra vez no fundo do poço enquanto

estrelas migram lá fora

 

Ademir Assunção



Escrito por ademir assunção às 00h05
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APLAUSOS PARA LAU SIQUEIRA

 

Lau: http://www.poesia-sim-poesia.blogspot.com/

 

As festas de São João são muito fortes em quase todo o Nordeste brasileiro. Têm quase a mesma força do carnaval. E os grandes empresários de axé e forrozinhos enlatados faturam horrores, com shows para multidões. Rola muito dinheiro. E essa indústria “musical” fatura alto, desrespeitando o público (que é tratado como mero consumidor), os artistas e a cultura popular. Um show de Ivete Sangalo, por exemplo, sai por algo em torno de R$ 130 mil – é o que dizem fontes oficiais. A pressão para colocar os “artistas” que eles vendem em quase todos os “arraiais” beira o gangsterismo. Eles dizem que há espaços para todos (quem já não ouviu isso?). É mentira. Cada vez mais há espaços só pra eles.  

 

Lau Siqueira é poeta e Secretário de Cultura de João Pessoa. E ele resiste a essa pressão. Resiste com garra, inteligência e coragem. Na sua gestão, conseguiu mudar a estrutura e a programação das festas de São João na capital paraibana. Conseguiu levar aos palcos a diversidade e a riqueza da cultura popular. E isso é da maior importância, com repercussões em todas as áreas artísticas. Não faltam críticas a sua coragem (e também aplausos), às quais ele responde com inteligência e responsabilidade. Como no artigo abaixo:

 

 

Yes, nós temos João!

(crônica para uma crítica anunciada)

 

Lau Siqueira

 

Não posso dizer que fiquei triste quando li na coluna do meu querido Jamarri Nogueira que a programação do São João da capital era "fraquinha". Fiquei foi embasbacado. Naquele momento sequer tínhamos anunciado a tal programação. Comecei a entender, então, o porquê de alguns artistas reclamarem da ausência de repercussão (positiva ou negativa) dos seus shows, espetáculos, lançamentos e exposições.

 

Mas, esse papo introdutório dá pano para outras mangas. Na verdade, o que impulsionou a reflexão deste momento foram as declarações de Biliu de Campina e Pinto do Acordeom em uma emissora de TV local. Eles ressaltavam as escolhas que foram feitas para a programação do São João de João Pessoa. Biliu chegou a brincar, dizendo que em muitas cidades havia um "Sem João" e que na capital era o verdadeiro "Tem João".

 

O que ocorre, no entanto, é que não podemos sucumbir diante do lugar comum. Não se pode conceber um evento dito cultural que se renda às multidões. Porque as multidões, de um modo geral, estão previamente habilitadas para as estratégias da indústria cultural. Não se pode conceber uma gestão cultural que não tenha um caráter educativo. Até porque administrar é, sobretudo,  um ato educativo. A realização de uma festa popular tão importante para o resgate da identidade cultural nordestina como os festejos juninos não poderia se dar de forma diferente. Por isso não podemos ficar calados diante das tentativas nada inocentes de jogar pérolas aos porcos.

 

O que se estabeleceu de forma silenciosa, mas sólida na capital da Paraíba nos quatro últimos anos foi um novo conceito de evento público. Em primeiro lugar, devido às escolhas. Em segundo lugar, por um planejamento que nos permite comemorar um índice insignificante de violência nos shows realizados durante o ano inteiro. Os festejos juninos este ano, entretanto, bateram o recorde. De 21 a 29 de junho, não houve um único empurrão no Largo de São Pedro, Praça Antenor Navarro e Conventinho - os três pólos da nossa festa. Algo a ser comemorado num tempo em que algumas festas de rua acabam virando praças de guerra e até mesmo contabilizando mortes.

 

O "João" da capital, entrementes, não se resumiu aos shows maravilhosos que aconteceram na praça Antenor Navarro. Como o do Quinteto Violado que nos mostrou ser possível colocar bailarinas no palco, sem vulgaridade. Foi assim com o balé popular de Recife! Também foi só plenitude Clã Brasil e Antônio Barros e Cecéu, que comprovam que as nossas grandes atrações podem sim morar na cidade. Da mesma forma o genial Pinto do Acordeom e os emergentes Cabra do Mateus, Maciel Salu, Mayra Barros e tantos outros. A presença de forrozeiros do primeiro time como Maciel Melo e Petrúcio Amorim selou o conceito de que podemos fazer um grande São João, sem concessões ao grotesco, ao mau gosto. Fechamos com chave de ouro, trazendo o excelente Santanna e a Poesia Popular Universal de Jessier Quirino.

 

Estamos consolidando o São João de João Pessoa como um grande festival regional de folclore. Mais de setecentos brincantes passaram pelo Largo de São Pedro. Era mazurca, coco de roda, nau catarineta, ciranda, reizado, mamulengo, cavalo marinho e outras expressões do imenso patrimônio imaterial da cultura nordestina. Quem esteve no Largo para dançar com Aurinha do Coco, Dona Teca, Dona Selma, ou Mané Baixinho, sabe do que estou falando.

 

Também foi esse o modelo que propiciou um novo debate acerca da vocação do Arraial do Varadouro. Um evento com capacidade própria de mobilização popular. É impossível negar fatos tão presentes na vida do Arraial. Existe um festival de quadrilhas já consolidado. No entanto, existem linhas de projeção folclórica, criadas a partir das quadrilhas e que não são mais quadrilhas. Alguns chamam pejorativamente de "estilizadas". Na verdade são espetáculos belíssimos que também precisam de espaço próprio para cultivar suas linhagens contemporâneas, mesmo dentro de uma engrenagem de preservação da tradição e da identidade. Ao apresentar o grupo de carimbó, Moara, de Belém do Pará, o Arraial deu sinais de respirar o próprio futuro. Passaram por lá pessoas de Honduras, dos EUA, da Itália, da França e de outros lugares. E saíram maravilhados.

 

Em última análise, precisamos estabelecer esse debate. Afinal precisamos sintonizar linhas de comprometimento com a recuperação das antigas (e a descoberta de novas) potencialidades de desenvolvimento de uma cidade que ainda tem chances de escapar da barbárie urbana dos grandes centros. O fato de termos "João" nos enche de esperança. Uma esperança como a que foi conceituada por David Cooper: "não há esperança. Há uma luta. Esta é a nossa esperança."  E que venham as críticas, para que possamos pulsar melhor nossos argumentos. Nosso grande desafio está posto: conjugar tradição e contemporaneidade.



Escrito por ademir assunção às 12h29
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PALPITE INFELIZ

 

Capa da Coyote 16: foto de Boris Kossoy 

 

O poeta carioca Carlito Azevedo deu uma entrevista a não sei qual jornal ou revista (chegou-me por email, sem indicação das fontes), em que comenta, em uma das respostas, as revistas literárias brasileiras. Eis um trecho:  As revistas que seguem mais o modelo das revistas "inter-semióticas" dos anos 70, como Coyote , Oroboro e Medusa me despertam menos interesse; há nelas uma certa "teatralidade da rebeldia" que na verdade tenta ocultar uma insuficiência poética. Mas quando eles largam essa pose, acabam produzindo bons números.”

 

Sinceramente, tenho preguiça de comentar a declaração de Carlito Azevedo.

 

Ele tem o direito de falar o que quiser. Ele tem a opinião dele. Há muitos outros que pensam completamente diferente em relação à Coyote: Boris Schnaiderman, Jerusa Pires Ferreira, José Kozer, Eduardo Milán,