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ESPELUNCA - blogue de ademir assunção


VIRALATAS – A CAPA


 

Em abril deste ano, viajei à Córdoba (Argentina). Fui visitar minha filha Naiara, que estava estudando História na Universidade Nacional. Nos oito dias que fiquei por lá, andava muito a pé pela região central. Subia e descia a avenida Chacabuco, a Obispo Oro, a Entre Rios, a Corrientes. Nas minhas andanças, fiquei impressionado com a quantidade de viralatas vivendo nas ruas. Pode ser uma falsa impressão, mas todos me pareceram bem tratados. Percebi tigelas com ração e água nas esquinas, deixadas pelas pessoas. Não vi ninguém maltratando nenhum deles. Deve haver alguma explicação para isso.

 

Comecei a fotografá-los.

 

Na calçada do Passeo del Buen Pastor, um antigo complexo religioso que virou centro cultural, fotografei um viralatas negro - um pouco velho, me pareceu. Talvez estivesse cansado da vida nas ruas. Ou, então, estava simplesmente morgando no calor da tarde, bem alimentado por alguma boa alma. Eu acabara de sair de um restaurante e estava com uma quentinha nas mãos. Dei-lhe a comida, ele sequer se levantou, nem abanou o rabo. Comeu devagar e ficou me olhando com um olhar triste, talvez cansado, e ao mesmo tempo altivo. Saquei o celular e resolvi fotografá-lo (sim, é uma foto feita com um celular). Baixei a câmera até o calçamento, para fotografá-lo no ângulo de visão dele próprio. Queria entender, de alguma forma, como ele mesmo olhava o mundo ao redor.

 

Quando voltei a São Paulo, retomei os ensaios com a banda Fracasso da Raça para a gravação do novo cd. Tinha um nome para o disco: “As ruas estão estranhas”, mas ainda não estava totalmente convencido. De tempos em tempos, olhava essa foto na memória do celular e continuava me impressionando com o olhar deste cachorro de rua. Mostrei a imagem para várias pessoas e todas gostavam. Comecei a cogitar a possibilidade de mudar o título do cd para Viralatas de Córdoba e colocar a imagem na capa.

 

Ainda tinha dúvidas se a foto tinha qualidade técnica para a capa de um cd. Bruno Brum, encarregado do projeto gráfico, me convenceu. Tinha. Na reta final das gravações, escrevi o poema Viralatas de Córdoba e voltei ao estúdio com a idéia de montar uma vinheta com latidos, ruídos de trânsito e os instrumentos da última faixa, cada um entrando na sequência do outro: primeiro a bateria, depois o baixo, depois a guitarra. Mas a primeira coisa que se ouviria ao colocar o cd no aparelho, seriam latidos. Deu um trabalhão. Eu e Cássio Martin, engenheiro de gravação, ficamos quatro horas e meia trabalhando na vinheta de 43 segundos. O cão do vizinho do estúdio, ao ouvir os latidos, repetidos inúmeras vezes, desandou a latir também.      

 

Quando terminamos, eu não tinha mais dúvidas. A foto, o poema e a vinheta me pareceram a melhor porta de entrada para o que se ouviria na sequência.  

 

E assim ficou.

 

Agradeço a este anônimo viralata por ter dado a liga final a essa linguagem burilada ao longo de três anos. Espero que ele esteja bem, vivendo sua vida de cachorro de rua. Espero que Córdoba cuide bem dele.

 

 

VIRALATAS DE CÓRDOBA

 

Eles saem solitários pelas ruas

trotando, farejando, observando

 

São os primeiros a perceber

que uma fina substância misteriosa

 

circula pelos becos, pelas vielas

pelas veias da cidade

 

Ninguém ainda sabe seu nome

mas alguns já sentiram

 

seu hálito quente por perto

 

Talvez seja melhor abrir as janelas
Talvez não haja mais tempo



Escrito por ademir assunção às 22h39
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