Eu tinha 12 anos quando a música “Eu quero é botar meu bloco na rua” estourou. Tocava muitas vezes nas rádios Cultura e Morada do Sol, de Araraquara. Tocava no Brasil inteiro, soube depois. Eu não entendia direito, mas adorava aqueles versos: “Há quem diga que eu não sei de nada / Que eu não sou de nada e não peço desculpas / Que eu não tenho culpa mas que eu dei bobeira / E que Durango Kid quase me pegou”. A música tinha uma sonoridade diferente de tudo o que eu ouvia. Parecia triste. Mas de repente explodia aquele refrão: “Eu quero é botar meu bloco na rua / Brincar, botar pra gemer”. Parecia mesmo uma explosão. Eu continuava não entendendo direito, mas tinha um efeito contagiante.
Depois ouvia nas rádios “Pobre, Meu Pai”. Eu não sabia que era do mesmo compositor. Na época, não distinguia muito quem era quem, mas também gostava da música e dos versos: “Doido meu pai / Sete bocas mastigando o jantar / Sete loucos entre o bem e o mal / E o meu coração de vidro / Não parou de andar”. Essa era triste do começo ao fim. Posso sentir até hoje o arrepio que os versos finais me causavam: “Simples, meu pai / Faça um samba enquanto o bicho não vem / Saia um pouco, ligue o rádio, meu bem / Não ligue, que a morte é certa / Não chore, que a morte é certa / Não brigue, que a morte é certa”. Eu era apenas um menino de 12 anos, não sabia exatamente o que era a morte, porém os versos me deixavam pensativo.
Eu ouvia essas coisas no rádio. A programação das emissoras de rádio, tenho certeza, era bem diferente do que é atualmente. Não tinha essa de “só alegria!” Eu não sabia o que estava acontecendo no país, mas sei muito bem o que tocava minha mente e meu coração. Não é uma questão de saudosismo. É fato.
Depois nunca mais ouvi Sérgio Sampaio no rádio. Só fui ouvi-lo novamente, em disco, alguns anos depois, quando comecei a andar com uma turma mais velha, que sabia mais das coisas. Foi quando tudo começou a despencar na minha direção, como uma avalanche: Milton Nascimento, Beatles, Rolling Stones, Elvis Presley, Raul Seixas, Luis Melodia, Jimi Hendrix, Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé, Billie Holliday, Janis Joplin, Nina Simone. Aí fui ouvir novamente Sérgio Sampaio. E virei fã das músicas dele.
Anos mais tarde meu amigo Fabio Henriques apareceu com uma fita k-7 com músicas inéditas de Sampaio. Luiz Calanca, da gravadora Baratos Afins, queria lançar um novo disco, com aquele repertório. Pouco tempo depois, veio a notícia de que Sampaio morrera. Iria fazer um show no Centro Cultural São Paulo. Eu iria vê-lo no palco pela primeira vez. Mas ele morreu antes.
Morreu no ostracismo. Deixou três discos clássicos: “Eu quero botar meu bloco na rua”, “Tem que Acontecer” e “Sinceramente”, sem contar “Sociedade da Grã-Ordem Kavernista apresenta Sessão das 10”, com Raul Seixas, Miriam Batucada e Edy Star.
Há poucos anos, Zeca Baleiro produziu e lançou “Cruel”. As canções são aquelas que meu amigo Fábio me mostrara anos antes na fitinha k-7. Só voz e violão. Vários músicos arregimentados por Zeca Baleiro arranjaram e acrescentaram outros instrumentos às músicas. Mais um disco clássico de Sampaio. Há quem questione os arranjos. Eu gosto muito.
Aos poucos, a obra de Sérgio Sampaio vai voltando e ocupando o lugar em que sempre esteve. Um lugar de grandeza artística como poucos conseguem atingir.
Agora, meu amigo Juliano Gauche me manda o link de um documentário sobre Sérgio Sampaio, dirigido por Nayara Tognere. Quem não conhece, tem aí uma porta de entrada. Importante, mas ainda pequena para a grandeza de Sampaio. Ainda quero ver nos cinemas um documentário longa-metragem, como já tiveram Itamar Assumpção, Arnaldo Baptista, Jards Macalé e, agora, Raul Seixas. É ao lado dessa turma que ele tem que estar. É ao lado dessa turma que ele sempre esteve.