| ESPELUNCA - blogue de ademir assunção |
E A VIDA CONTINUA
Vai ser um encontro de gente grande. Neuzza Pinhero cantou com Itamar Assumpção e Arrigo Barnabé. Hermeto Pascoal pirou quando a ouviu. É uma poeta de mão-cheia. Compositora também. Rodrigo, na minha opinião, é um dos grandes poetas brasileiros da atualidade. Tem muito o que dizer. E mostrar. Ó: ZEITGEIST Nocauteando celebridades disfarçadas de pingüins Monitorando a muvuca das transações e trapaças alpinistas Serpenteando entre escadarias cravejadas de citações Chutando o balde do crepúsculo com o bebê da aurora dentro Chegando firme na dividida com a mentira, pisando o calo da calúnia Colecionando estoques de paciência e delatores pederastas Beliscando morenas de fiberglass e pixels de altíssima definição Pegando marqueteiros pela orelha, levando o bispo milionário pelo pescoço Mostrando seu catálogo de golpes de jiu-jítsu para web designers Aparovando editores de modas com crucifixos de merda Partindo pra ignorância pra cima das floriculturas Esfaqueando a manhã e as boas intenções com sua adaga afiada Pulverizando jogadores de genoma e modelos chipadas Dando geral nos arquivos adulterados dos tribunais de justiça Assaltando pipoqueiros metafísicos e banqueiros artistas de fim de semana Distribuindo pirulitos de ácido para críticos literários Arrebentando a boca da razão com denúncias inconseqüentes Estrangulando docemente a tarde carregada de câmeras de vídeo & trance music Pregando a irresponsabilidade fiscal, e anthrax para todos, Rifando o shopping lotado de idéias fixas com gritos de jihad O homem-bomba entra no poema
Rodrigo Garcia Lopes SONETO PARA OS ÍNTIMOS As rosas de que falam os poetasciosos dessas rosas tão só rosasnão fazem jus às rosas-hemorróidas se me desabrochando pelas pregas. Do ventre adulterado pelos dias em que o bolo fecal não vê saída (posto pedra aguda – eis a vida! ) bradam retumbantes melodias. Aqui, no apogeu de dor intensa, a veia anal se desfazendo em flores de fogo, sangue e indecência, clamo aos sete ventos meus horrores: coisa tenebrosa, desavença, vade retro, rosa!...Ou seja lá o que fores! Neuzza Pinhero
Escrito por ademir assunção às 23h27
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UMA NOITE LONGA. UMA VIDA INTENSA "Guelras e silêncio. As formigas passeiam pelos peixes. Jonas e sua baleia estão expostos. À mostra, toda a tradição. Estandartes nas mãos. Crianças começam a cantar o estribilho do hino nacional. As bandeiras se masturbam no vento. Poetas discutem a complexidade do mundo sem complexidade. O hino é belo e a flâmula é verde e amarela. Eu só queria romper a bolha que me prende a esta casa e a estes metros quadrados. Eu iria à feira ver os peixes mortos. Sentir o odor fétido das sardinhas expostas. E não ler em algum lugar que tudo está à venda. Inclusive as cabeças dos líderes da oposição poética. Um a um decapitados por serem apenas diferentes." (Poema de Rodrigo de Souza Leão, do livro O caga-regras. Pará de Minas: Virtual Books, 2009.)
Os emails continuam chegando. Claudio Daniel, Greta Benitez, Horácio Costa, Ana Peluso. Todo mundo perplexo. Claudio Daniel escreveu uma pequena-grande homenagem em sua Pele de Lontra. Foi lá que encontrei esse poema-em-prosa do nosso querido Rodrigo. Poema-em-prosa? Vida-em-carne-viva! Claudio e Rodrigo eram parceiros. Faziam a revista Zunai juntos. Que se rendam homenagens. Vou repetir: um grande poeta se foi.
Escrito por ademir assunção às 23h15
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NÃO NÃO NÃO NÃO NÃO Eu me conheço. Quando eu começo, não sei parar. Eu perco coisas pelo caminho. Eu perco compromissos importantes no dia seguinte. Eu falo besteiras para pessoas que eu considero. Eu arrumo confusões desnecessárias. Eu passo muito perto do perigo. Eu já vi esse filme muitas vezes. Cada um é cada um. Eu não posso chegar tão perto do fogo desse jeito outra vez. Eu preciso muito de calmaria. Muito mesmo. Eu não deveria escrever essas coisas aqui, mas eu escrevo. É apenas um jeito de me salvar. É apenas um jeito de pedir: senhores deuses me protejam. Que ninguém se assuste. Nem todo dia a vida é em tecnicolor. Só isso. Cuidem-se bem, perigos há por toda a parte, como cantava Guilherme Arantes. Aliás, Marião, essa é uma boa pra incluir no repertório, não acha? No fundo continuamos sendo os velhos garotos selvagens de sempre. Quem sabe esteja na hora de assumirmos: só somos velhinhos indomáveis. Mas até Paul Newman tem seu tempo de trégua. Deu pra mim. Vou pra Porto Alegre, tchau.
Escrito por ademir assunção às 16h19
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UM GRANDE POETA 
Rodrigo de Souza Leão escreveu um dos melhores livros que li o ano passado: Todos os Cachorros São Azuis. Um pequeno clássico geracional. Como PanAmérica (José Agrippino de Paula), Tanto Faz (Reinaldo Moraes) e Morangos Mofados (Caio Fernando Abreu). E continuava escrevendo alucinadamente. Prosa e poesia. Não o conheci pessoalmente, mas era como se fosse meu amigo íntimo. Conversamos uma única vez por telefone. Ele me ligou do nada e ficamos mais de uma hora conversando. Trocávamos muitos emails. Me sentia próximo dele. Rodrigo era uma espécie de Ken Kesey da poesia brasileira. Um estranho no ninho da poesia. Agora pouco recebo um email do meu amigo Cássio Amaral dizendo que ele se foi. Logo depois, meu amigo Sérgio Mello confirma. Parada cardio-respiratória. Estou pasmo. Sinceramente, espero que tudo não passe de um engano. Ele mantinha um blogue muito legal. O lowcura. Esse foi o último texto que escreveu, publicado no dia 25 de junho: “A mente esquizofrênica não funciona bem e boicota, sem os remédios, o tempo todo. Com remédios ficamos bem. Leves e tranqüilos para o mundo, que é muito bom. Fora as pessoas que não valem à pena, estas manter distância torna-se necessário. Positive Vibrations.” No mesmo dia, 2h20 antes, ele postou esse poema: TUDO É PEQUENO Tudo é pequeno A fama A lama O lince hipnotizando a iguana O que é grande É a arte Há vida em Marte Caraco, irmãozinho: você vai fazer falta. Segue em paz teu caminho. Positive vibrations.

Escrito por ademir assunção às 16h34
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O TEMPO NÃO PÁRA 
“Não devemos desperdiçar a graça dos pequenos momentos de liberdade de que podemos desfrutar: uma mesa compartilhada com pessoas que amamos, umas criaturas que ampararemos, uma caminhada entre as árvores, a gratidão de um abraço. Nós nos salvaremos pelos afetos. O mundo nada pode contra um homem que canta na miséria.” Ernesto Sábato, na Coyote 19, que já está chegando nas livrarias e no Sebo do Bac: www.sebodobac.com
Escrito por ademir assunção às 13h49
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COYOTE NOVA NA PRAÇA
Foto da capa: Rogério Ivano Chegamos ao número 19. Com uma entrevista inédita de João Cabral de Melo Neto, feita pelo poeta gaúcho Thomaz Albarnoz Neves. Cabral diz coisas surpreendentes. Tipo isso: “Quando estava morando em Barcelona, tinha acabado de escrever e publicar a ‘Psicologia da Composição’ e estava certo de que não iria mais escrever poesia.” Tem mais: poemas da brasileira Annita Costa Malufe, da portuguesa Ana Luísa Amaral, do norte-americano George Oppen (traduzidos por Ruy Vasconcelos) e da espanhola (radicada no Paraguai) Montserrat Alvarez (traduzidos por Luiz Roberto Guedes); contos de Marcelo Maluf, Reni Adriano e Donald Barthelme (traduzido por Caetano Waldrigues Galindo), quadrinhos da dupla Teo Adorno e Luiz Brás e fotos do londrinense Rogério Ivano. Tem poemas meus também, do meu novo livro, ainda inédito. Quem estiver interessado, Coyote 19 já está chegando nas livrarias. Se não encontrar, vá direto ao Sebo do Bac que é tiro certeiro: www.sebodobac.com. E abaixo poema de Montserrat Alvarez (com sua dicção densa e atormentada), traduzido por Luiz Roberto Guedes: Garrafa ao mar do futuro Os grandes amantes que saúdam com as loucas gargalhadas de sua unção esquizofrênica as primeiras cruezas do inverno sua rotina cíclica, rigorosa e rude Os grandes amantes que aplaudem a chegada da noite com sua ultrajante barbárie clandestina com suas dolorosas alegrias cruéis, com seus gozosos loucos maravilhosos êxtases psicóticos Os grandes amantes que caminham apressados dando-se nervosamente as mãos suarentas fumando com frenesi e beijando-se e movendo as pernas olhando em frente sem nunca dizerem nada porque já sabem de tudo – como se estivesse dito Os grandes amantes que consomem cerveja e aguardenteque desperdiçam até o que não possuem que caminham a toda pressa cegamente perseguindo um sentido que não está em parte alguma que tentam comportar-se como pessoas normais mas não conseguem esconder de todo o vigoroso afã que os consome entrelaça seus corpos move suas pernas sem fim nem trégua porque perseguem algo que não se encontra em parte alguma
Escrito por ademir assunção às 12h08
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Os grandes amantes que vão ao dentista põem o lixo lá foradizem boa tarde pagam a luz o aluguel a água vivem passando aperto com seu incerto porvir terrenocolocam sua máscara social a cada dia preservam as aparências enfrentam e sorriem ante o ubíquo inimigo plural de mil olhos Que apenas conseguem fazer frente a tal destino terreno porque estão teimosa e avidamente ocupados em sua perseguição insone faminta de algo que não está em nenhuma parte Mas que contudo retiram o lixo dizem boa tarde pagam os honorários do dentista trabalhamperdem no trabalho horas preciosas de sua única vida horas que poderiam ser poemas horas que poderiam ser de amor horas enfim roubadas de sua busca feroz e decisiva os grandes amantes que retiram o lixo pagam a luz o aluguel a água Os grandes amantes que refreiam seu impulso de começar a correr mesmo que não saibam para onde vão e às vezes de madrugada acordam anelantes e se unem e se beijam mas não conseguem nunca acalmar-se porque perseguem algo que não está em parte alguma Que não está neles mesmos que em parte alguma estáque já não fala nunca que ninguém lhes esconde que não se torna visível que não mora em seu centro que já está esquecido que já deixou seu coração vago que a ninguém mais recorda nem conheceu jamais ao qual ninguém mais interessa Que um dia teve uma alma grande como o espaçoque falava com setenta vezes sete sonoras fauces setenta vezes sete gigantescas e fundas que eles ainda têm dentro de suas gargantas Algo do qual eles são os espectros sem sabê-lo as sombras projetadas a luta a agonia a última batalha que os faz bramir com suas vozes toscas negras grosseiras perigosas Que é sua fonte sua medula seu intempestivo núcleo o motorde sua vida e de sua força o feroz combustível de suas pernas potentes que perseguem a Morte o Absoluto a Última Verdade Definitiva a única coisa que poderá saciá-los isso que os agita e alimenta com sua enorme maldade com seu ódio cego que quer destruir com sua demente e também cega patética bondade alucinada que não fala por eles mas em nome de todos que em nome de todos se rebela e maldiz que deseja matar e morrer pelos outros por milhões por algo que já não se encontra em nenhuma parte Que ninguém lhe interessa afinal de contas que já não lembra de ninguém ainda que todo este amore todo este ódio pudessem ter sido tão importantes um dia quase vitais que coisa mais ridícula ainda que tantas palavras feitas de tanta vida feitas de tanta morte possam ter sido importantes um dia para todos os homens Os grandes amantes que tanto caminham os dromomaníacos delirantesque se entrelaçam e se unem na desolação de sua tristeza em seu impressionante vigor improdutivo em sua insólita formosura em seu desconcertante desamparo em seu exílio de um Olimpo desabitado e arruinado porque se sabem sozinhos sozinhos sozinhos Perseguem em suas cegas caminhadas e querem e não querem encontrar o grande trono vazio de sua divindade arcaica Ó Senhor da Noite, por que te manifestas como ausência Quem terá te assassinado Os grandes amantes escrevem escrevem e com tinta invisível e ferozes criptogramasinterpelam os que chegarão em tempos mais ditosos – Ó vós todos daqui deste mundo de mudez inerte desde este grande semsentido deste mundo tão feio desde algo tão vulgar como este mundo daqui deste mundo televisionado ao vivo e diretamente nós vos saudamos Muitas felicidades Porque o que hoje se diz a partir de dois solitários corações dementes saberá dizê-los em voz alta o amanhã desde muitos milhões desde todos
Escrito por ademir assunção às 12h05
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HOJE NO RIO 
SÁBADO EM SÃO PAULO

É o sexto encontro da série, que tem feito a cabeça de muita gente.
Escrito por ademir assunção às 11h25
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HOJE É DIA DE PORNOPOPÉIA Ezra Pound falava em melopéia, fanopéia e logopéia. Leminski acrescentou mais uma: a loucopéia. E agora Reinaldo Moraes amplia a festa com sua pornopopéia.
Lançamento hoje (dia 29), na Mercearia São Pedro (rua Rodésia, 34 – Vila Madalena), a partir das 20h.
Escrito por ademir assunção às 12h21
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