Essa me lembra ruas de Porto Alegre. Manhãs de outono. Calçadas cobertas com folhas de ipê roxo. Olhares cúmplices no meio da noite. E uma certa delicadeza que anda se perdendo por aí.
Algumas notícias chegam como um soco de Mike Tyson no meio da cara. Essa é foda. Acabo de saber que meu amigo Reinaldo Maia se foi. Infarto, hoje de manhã. Maia era uma das cabeças do grupo teatral Folias D’Arte, junto com Marco Antônio Rodrigues. O velório vai ser lá no Galpão do Folias, a partir das 20 horas. Porra. Vai em paz aí, meu irmão.
Trechos de uma entrevista de Noam Chomsky à The Real News Network. Não tem nada daquele linguajar pedante e obscuro dos economistas que trabalham para os interesses privados (como fiéis e ameaçadores pitbulls). Bem fácil de entender. Bem fácil. Se liga aí:
“Com os grandes bancos, como o Bank of America, um dos maiores problemas é que ninguém sabe o que se passa lá dentro. São aparelhos muito opacos e que fazem muitas manipulações - não são eles que vão falar. Por que o fariam? De fato, quando a Associated Press enviou jornalistas para entrevistar os gestores do banco e lhes perguntaram o que fizeram com o dinheiro do TARP (programa governamental de recuperação de ativos problemáticos), eles simplesmente riram. Disseram: "Vocês não têm nada com isso. Somos empresas privadas. A tarefa do serviço público é a de nos dar fundos, mas não de saber o que estamos fazendo." Mas o governo podia descobrir facilmente - nomeadamente, assumindo o controle dos bancos.”
“Antes de mais nada, para começar, significaria que o governo não resgataria os bancos, aplicaria capital mas exerceria o controle. E controle começa com a inspeção. Assim, descobrimos o que eles estão fazendo. Em seguida, mantemos as partes viáveis. E se são viáveis deveriam ser postas sob controle público. O governo poderia ter comprado a AIG ou o Citigroup por muito menos do que está gastando agora. Numa sociedade democrática, o governo deveria seguir os interesses do povo, e haver um compromisso público direto no que estas instituições devem fazer e como elas devem distribuir o seu dinheiro, em que termos, etc. Podiam ser democraticamente geridas pelos seus trabalhadores, pela comunidade.”
“Não é preciso usar a palavra "nacionalização" se ela incomoda as pessoas, mas alguma forma que permitisse que investigadores independentes, investigadores do governo tivessem acesso aos livros e descobrissem o que eles estão fazendo, quem deve o quê a quem, que é a base de qualquer forma de mudança.”
“Veja, o homem mais rico do mundo, Bill Gates. Como é que ele se tornou o mais rico? Muito do que ganhou veio de dinheiro público.”
“No essencial, o sistema funciona assim: o público paga os custos e assume os riscos, e os lucros são privatizados.”
“Quando se pensa em nacionalização, o sistema doutrinal, por razões históricas, associa nacionalização a uma espécie de Big Brother que toma o controle e dá ordens ao público. Mas não tem de ser necessariamente assim. Há muitas instituições nacionalizadas que funcionam de forma bastante eficiente. Veja o exemplo do Chile, que é supostamente a imagem de marca das economias de livre-mercado Thatcheristas/Reaganistas. Uma grande parte da economia é baseada na muito eficiente produtora de cobre, a Codelco, que foi nacionalizada por Allende, mas era tão eficiente que durante os anos de Pinochet nunca foi desmantelada.”
Se quiser ler a entrevista na íntegra (e vale muito a pena) clique aqui.
Essa frase de Itamar Assumpção tem ressoado nas paredes internas do meu crânio: Tenho um amigo chamado Arrigo. O resto, depois eu digo. Na verdade, não é uma frase, nem sequer um verso. É uma canção inteira. Só isso: Tenho um amigo chamado Arrigo. O resto, depois eu digo. Qual o significado de ela ter grudado na minha cabeça? Sinceramente, não faço a menor idéia.
Não sou muito chegado em galerias (exceto a Coletivo, da amiga Lu). Normalmente acho uns lugarzinhos metidos a besta, com gente mais ainda. Nos Jardins, então, valha-me Deus. Mas essa exposição eu tô afim de conferir.
Charlie Meadows (John Goodman): As vezes faz tanto calor que quero largar a pele.
Barton Fink (John Turturro): (após um longo silêncio): Mas, Charlie, por que eu?
Charlie: (gritando) Porque você não ouve. (Mais calmo, quase docemente): Vamos lá, Barton, você acha que conhece a dor? Acha que infernizei sua vida? Olhe para esta espelunca. Você é um turista com uma máquina de escrever, mas eu moro aqui. Não entende isso? Você entra na minha casa queixando-se que eu faço muito barulho.
Barton: Desculpe.
Charlie: Não peça desculpa.
Quiser saber o contexto em que acontece essa conversa, veja o filme: Barton Fink, dos irmãos Cohen
Gosto de frequentar alguns lugares. Mas tenho visto cenas e ouvido crocodilagens que me cansam essa alma já bem cansada. Muita fissura no ar. E essa fissura me enche. Os papos se repetem. As caras se repetem. As ilusões se repetem. Bobagem. Coisa minha. Gosto de encontrar meus amigos, falar bobagens, rodopiar como um pião. Não estou interessado em fofocas. Estou interessado em boas conversas. E, se possível, em amizades e amores verdadeiros. E ontem na mercearia eu estava com cinco amigos. E ao menos estava divertido. Ao menos não falamos mal de ninguém. Apenas inventamos conversas desconexas para disfarçar a dor de cada um. No fundo, a impressão é essa. E eu tenho a mesma impressão do casalzinho que passa pela calçada de mãos dadas. Então, continuamos conversando, bebendo como ursos polares e comprando velhos vinis na madrugada. Mas até disso eu estou cansado. A última imagem que me lembro: eu entregando três vinis que Carcarah tinha acabado de comprar e esquecera no balcão da Mercearia. O carro amanheceu dentro da garagem. Não sei como cheguei até a cama. Sei que acendi um incenso pra Lua. Meu anjo da guarda deve estar em algum lugar por aí. Hoje o mundo acordou rodando. E eu sei que ele vai continuar rodando. E agora vou ver mais um pedaço de Barton Fink. Não sou o primeiro. Não serei o último. Grandes amores podem se derreter como o cubo de gelo dentro do copo de uísque. A ilusão pode durar pouco. Que seja. O desrespeito machuca mais do que uma pedrada.
Não sei se todos estão acompanhando. Uma nova lei, que substitui a Rouanet (mas não acaba com ela, ao contrário do que os barões da cultura dizem) vai ser enviada ao Congresso Nacional. Para votação. A pressão contrária vai ser brutal. Por quê? Há muita grana envolvida na parada. E os barões da cultura e as grandes empresas não querem perder a mamata de fazer marketing privado com dinheiro público.
A nova lei propõe a incrementação do Fundo Nacional de Cultura. Na minha opinião, é um mecanismo que vai favorecer os independentes. E os barões da cultura não querem isso. O texto da nova lei está disponível para consulta pública no site do Ministério da Cultura. Todo mundo pode opinar (de preferência, com propriedade, sabendo o que está falando).
No nosso caso, dos ESCRITORES, ainda há uma distorção. Continuam nos colocando no guarda-chuva do “Livro e Leitura”. Eu cansei de falar contra isso nas reuniões que participei. Uma bosta isso. Livro é livro, é o produto. Literatura é o que vem antes: a arte literária. Livro é o produto industrial das editoras. Literatura pode se manifestar em outras formas: revistas, sites, cds, cds-rom, jornadas literárias, encontros de escritores com leitores, enfim, uma infinidade de outras coisas que não se resumem ao livro.
A nova lei cria o Fundo Setorial das Artes que inclui, repare bem, teatro, circo, dança, artes visuais e música. Reparou? Literatura não está incluída aí, como arte. Eu estou cansado de bater na mesma tecla. Estou também sem tempo (preciso batalhar minha própria sobrevivência). Mas sugiro que todos os escritores que ainda têm alguma consciência façam uma coisa simples: entrem no site no Minc, sigam ao link da consulta pública da nova lei e exigam que a literatura seja considerada como uma arte. Que ela saia do guarda-chuva “livro e leitura” e passe para o Fundo Setorial das Artes. Só assim, a criação literária poderá receber recursos públicos, justos, através de editais públicos, e não sob a (má) vontade de um gerente de marketing de uma grande empresa (que nunca está interessado num projeto literário).
Depois, não adianta espernear quando barões da cultura surgirem com projetos mirabolantes. A oportunidade é agora. Se mexam. Todos os outros setores estão se mexendo. O link do Ministério da Cultura é esse aqui: http://www.cultura.gov.br/site/ À direta no site você vai ver de forma bem visível: Reforma da Lei Rouanet. É ali.