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ESPELUNCA - blogue de ademir assunção


ARTILHARIA LIGEIRA PARA UM KAMIQUASE – FINAL

 

Vai aqui a última parte do ensaio sobre Leminski, que venho publicando nessa espelunca desde terça-feira (19), em homenagem ao poeta que faria 64 anos amanhã. 

 


Leminski, Alice Ruiz e as filhas Áurea e Estrela (no chão). Foto de Lina Faria.
1984. Ou 85.

 

A utopia se fechando

 

         O passo adiante significou também um adensamento de sua poesia e uma visível mudança de tom: o bom humor da fase inicial dá lugar ao ceticismo. Leminski já pressentia o fim se avizinhando. Tanto que oito ou nove meses antes de sua morte (ocorrida em junho de 1989), quando sofreu uma forte crise hepática, pensou que não escaparia e chegou a escrever um bilhete-testamento, no qual procura eternizar um significado maior ao próprio desaparecimento. O documento é de uma coragem dilacerante:

 

“Este pode ser meu último texto. Talvez eu repita o destino de Fernando Pessoa, aos 44 anos e do mesmo mal. Nunca estive interessado em envelhecer, eu que sempre amei a juventude. Quero repousar em Curitiba, ao som dos Beatles, com meu kimono de faixa preta. Saio da embriaguez de viver para o sonho de outras esferas.”

 

Os próprios títulos dos dois últimos livros de poesia que deixou organizados (publicados pós-morte) indicam uma nítida consciência de que a vida se fechava: La Vie en Close e O Ex-estranho. Alguns anos antes, havia traduzido, de maneira emblemática, Malone Morre, de Samuel Beckett  e Sol e Aço, de Yukio Mishima, um tratado de morte, o suicídio ritual do último dos samurais.

         O envolvimento com a escrita de Mishima, aliás, especialmente com Sol e Aço, no qual o escritor japonês prepara o terreno conceitual para sua autoimolação através do seppuku (o suicídio honroso dos samurais) parece ter-lhe provocado grande impacto. Como não reconhecer, entre as aliterações cortantes de “a forte flor que a faca faz/ na fraca carne”, e em vários outros poemas, ecos da luta corporal de Mishima com as palavras, na tentativa de transformar a carne em verbo e o verbo em aço afiado?

         Na batalha por uma existência densa e profunda, na qual o domínio da palavra transcendesse as “misérias do cotidiano” — a necessidade de capitulação ou concessões para fins de sobrevivência — é provável que Leminski odiasse a derrota, a decrepitude em vida, tal como traduzida em Mishima: “Pode haver derrota mais execrável do que quando se é corroído por dentro pelas secreções ácidas da sensibilidade até que perdemos nossa silhueta, dissolvidos, liqüefeitos; ou quando a mesma coisa acontece na sociedade em nossa volta, e mudamos nosso próprio estilo para ficarmos parecidos com ela?”

         Leminski não parecia disposto a abrir mão, um milímetro sequer, de seu “estilo”, para ficar parecido com uma época em que as utopias estavam ruindo uma a uma. A radicalidade que emprega para compreender e dar um significado ao haraquiri (ou seppuku) de Yukio Mishima, na manhã de 25 de novembro de 1970, está expressa com letras maísculas no posfácio da tradução de Sol e Aço, publicada em 1985 (quatro anos antes de sua morte): “Era a integridade de uma cultura que Mishima defendia quando abriu o ventre diante do Comandante do quartel de Tóquio, escrevendo com aço na pele da sua vida as letras de sangue que diziam: EU NÃO CONCORDO (grifo do próprio autor).”  

(segue abaixo)        

 



Escrito por ademir assunção às 00h08
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No extremo oposto ao gesto samurai de Mishima — um ato totalmente tresloucado aos olhos dos ocidentais e até mesmo dos habitantes do Japão pós-industrial — está o personagem de Beckett. Condenado a uma cama de hospital, Malone morre em vida, pouco a pouco. Sua agonia, no entanto, representa a agonia do próprio sistema de representação do mundo calcado na lógica aristotélica. Se Joyce sonhou inaugurar um novo mundo através de uma nova linguagem, Beckett assumiu o papel de coveiro, preparando cuidadosamente o funeral da velha linguagem, que já não é capaz de dizer mais nada — mas que, como a Norma assassinada toda sexta-feira em Agora é que são elas, renasce nas páginas seguintes da história. Não foi por acaso que Leminski escolheu justamente Malone Morre para traduzir — um livro que não chega ao final, terminando abruptamente porque o lápis com o qual o narrador escreve o enredo simplesmente chega ao fim, deixando as frases mergulhadas num abismo.

            Entre um e outro extremo, Paulo Leminski, de certa forma, escreveu vigorosamente, com letras maísculas, um eloqüente EU NÃO CONCORDO.

 

Talvez ele já estivesse vislumbrando no horizonte o naufrágio do navio das utopias e quisesse, de alguma forma, poupar-se do constrangimento de assistir ao convertimento de ex-jovens rebeldes em velhos aristocratas da cultura. Talvez não sobrevivesse ao pacto daqueles que alimentaram sonhos de radicais mudanças na linguagem e nas atitudes — as esferas de mudança mais profundas — com o que há de pior na indústria cultural: as sandyces pseudo-românticas, a felicidade postiça da axé music, o emburrecimento cultural e estético dos “sertanejos” urbanos, engordados com rações importadas nas granjas das multinacionais da música. Como o poeta intenso, irreverente e contestador veria as tentativas correntes de transmissão aristocrática do bastão artístico — de pai para filho ou filha —, num espetáculo degradante de falta de talento, de comprometimento cultural e de forçada de barra? Como assistiria ao show de degradação de antigos companheiros de geração (e de seus herdeiros, nas fortunas acumuladas, inclusive) que fazem beicinhos constestadores (na capa das revistas Caras ou Chiques & Famosos) enquanto servem de garotos e garotas-propaganda para o poder econômico — a preço de cachês fabulosos e facilidades para seus empreendimentos “artístico-culturais”? 

Como esquecer as palavras lapidares do texto “O Último show de rock. Quem chora?”, de Anseios Crípticos (1986), em que, ao comentar o documentário The Last Waltz, de Scorcese, faz uma elegia aos que choram o fim do sonho e lamenta o desterro do “... mesmo (Bob) Dylan que pôs política na letra de música e deflagrou o protesto, o mesmo Dylan que o Sistema, que ele combateu e denunciou, pune agora transformando-o num multimilionário aristocrata da sociedade americana, Dylan, em pessoa.”?

É possível que já em finais da década de 80 do século passado, Leminski pressentisse o cinismo vindouro das grosseiras manipulações de fatos e idéias, responsáveis pelo ostracismo de criadores brilhantes e pelo sucesso de clones descartáveis, intensificadas nos anos seguintes. Quem sabe ouvisse no “insucesso” de verdadeiros gênios, como Itamar Assumpção (com quem foi muito ligado e compôs diversas parcerias), ecos dos fabulosos e terríveis versos iniciais do Uivo de Allen Ginsberg:

 

“Eu vi as melhores cabeças da minha geração destruídas pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus, arrastando-se pelas ruas do bairro negro em busca de uma dose violenta de qualquer coisa, hipsters com cabeça de anjo ansiando pelo antigo contato celestial com o dínamo estrelado na maquinaria da noite...”

        

Como jamais foi de separar vida e obra, paralelo à constante autobiográfica (a percepção da proximidade da morte), é cristalina na fase final da sua criação poética uma profunda negação do conformismo e do "acirramento da competição na luta pela sobrevivência, a níveis darwinianos". Não seria uma evidente tomada de posição o que transparece no poema "1987, Tende Piedade de Nós"?:

        

                  anos ímpares

         são anos vítimas

                  anos sedentos

         de sangue e vingança

                  todo gozo será punido

         e o deserto será nossa herança

 

         E como se pode ler o poema sintomaticamente intitulado "Campo de Sucatas"?:

        

                  saudade do futuro que não houve

         aquele que ia ser nobre e pobre

                  como é que tudo aquilo pôde

         virar esse presente podre

                  e esse desespero em lata?

 

         Ambos os fragmentos pertencem ao livro póstumo O Ex-estranho (1996), para o qual deixou anotado um pequeno texto introdutório: "Este livro ... expressa, na maior parte de seus poemas, uma vivência de despaisamento, o desconforto do not-belonging, o mal-estar do fora-de-foco, os mais modernos dos sentimentos".

 

         Paulo Leminski, que um dia definiu a poesia como "a liberdade da minha linguagem", deixou, de fato, uma poesia impregnada de vida e uma vida impregnada de poesia. Não se escondeu atrás dos versos: ao contrário, abriu o peito (e o cérebro) e expôs as experiências de um ser único passando pelo planeta e deixando sua marca, como fizeram Rimbaud, Pessoa, Whitman e tantos outros.

Respeitado e dono de enorme prestígio (o que não significava uma sobrevivência garantida), ele realmente ampliou-se ao limite máximo — La vie en close — e partiu em direção ao “sonho de outras esferas”. Viveu com a intensidade de um samurai zenbudista e construiu uma obra seguramente inscrita na pele da prosa e da poesia brasileiras. Poeta inovador, polemista irreverente, agitador imantado, atingiu uma luminosidade extrema, como ele mesmo escreveu no poema “Sintonia para pressa e presságio”:

 

Eis a voz, eis o deus, eis a fala,

eis que a luz se acendeu na casa

e não cabe mais na sala.

 

Leminski tinha o que dizer e o soube dizer. Essa a diferença.



Escrito por ademir assunção às 00h05
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ARTILHARIA LIGEIRA PARA UM KAMIQUASE – QUARTA PARTE

 

 

 

Manuscrito de Paulo Leminski, publicado na revista Medusa número 6 (agosto/setembro de 1999)

 

Uma bomba implantada no texto

 

         Em seu outro romance, Agora é que são elas (se é que se pode chamar de “romances” as prosas inventivas de Leminski), lançado nove anos depois de Catatau, o poeta curitibano inaugura uma outra jogada de mestre: escreve um livro aparentemente “normal”, com parágrafos, diálogos, descrições de cenas, todos aqueles aperitivos servidos em quase todas as “festas” literárias. Porém a festa leminskiana é animada por uma “trilha sonora”, digamos, desconcertante, e a normalidade dura até o surgimento da primeira Norma, sim, porque são muitas as Normas, personagem central, assassinada trocentas vezes e trocentas vezes ressuscitada em várias peles:

 

“E então vi Norma. Vi no sentido mais pleno de ver. Ver como quem nasce, como quem goza e morre.

Lá estava ela, nua como um susto, deitada naquela cama, cercada pelos três paus duros. Repousava entre as pernas do mais moreno, cabeça inclinada sobre seu caralho, a cabeçorra roxa despontando entre seus cabelos. Um outro, parecia ser o mais moço, beijava sua bunda. E o mais avantajado olhava a cena, acariciando o pau de leve, como quem mantém calma uma pomba para que não voe.”

 

Se Catatau arrebenta com a estrutura lógica do romance linear a partir de seu próprio alicerce (a linguagem), Agora é que são elas dá asas a impressão (falsa, evidente) de que Leminski rendera-se ao inimigo ao qual sempre devotou seu escárnio: a linguagem parece finalmente pacificada e “automatizada”. Não se encontra no livro os jorros verbais da primeira obra, com suas frases-serpentes que ziguezagueiam dentro de si mesmas, sempre à beira do abismo. Agora, o texto segue dentro das regras ditadas por papai-mamãe, sujeito, verbo, predicado. Acontece que Leminski implanta uma bomba dentro deste próprio modelo, como o personagem que possui uma bomba implantada no cérebro e que pode explodir, levando tudo pelos ares, se ele pronunciar “aquela palavra”. E ele atravessa a narrativa toda fazendo a ameaça.

A história se passa numa festa que acontece e não acontece ao mesmo tempo, na qual, toda sexta-feira Norma Propp é assassinada, para ressurgir nas páginas seguintes. Paralelo a isso há uma guerra de seres intergaláticos, a qual é observada e narrada por outra Norma (a mesma), só que na pele de uma criança, bastante endiabrada, por sinal. O livro tem uma ação em ritmo alucinante, mas não se pode falar em ação tradicional, pois ela se desloca do presente para o futuro, do futuro para o passado e do passado para lugar nenhum, como um círculo que engole-se a si mesmo. Numa jogada genial, o pai de Norma Propp é o psicanalista e professor Wladimir Propp (figura real), ao mesmo tempo analista do narrador. Com a autoridade dos analistas, o velho professor tenta provar ao narrador que ele não é necessário para o desenvolvimento da trama. Como não consegue, acaba exilando-o “no capítulo seguinte”.

Agora é que são elas foi muito mal recebido pela crítica e até pelos admiradores do poeta, que viam em Catatau sua obra realmente notável. O enrijecimento de vanguardistas históricos não conseguiu detectar a malandragem de Leminski: desescrever o “romance” tradicional utilizando as suas próprias armas, combatendo dentro de sua própria arena. Um dos raríssimos intelectuais que saiu em defesa do livro, alguns anos depois, foi Bóris Schnaiderman, no brilhante ensaio Em torno de um romance enjeitado. “Logo que o livro saiu, a crítica lhe caiu em cima, implacável e categórica. Seria um livro fracassado, resultado de um equívoco, algo de que o autor devia se envergonhar no futuro” — registra Bóris, para discordar da opinião corrente, alguns parágrafos a frente: “considero Agora é que são elas uma das obras de ficção brasileira mais interessantes dos últimos anos”.    

Ainda neste mesmo ensaio Bóris Schnaiderman reproduz uma observação a respeito da personagem central, Norma Propp, que pode ser entendida como uma dica do autor sobre a estrutura do livro: “Ela até que era lógica. Só que a lógica dela não fazia sentido.”

(segue)



Escrito por ademir assunção às 10h34
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Cartum de Paulo Stocker

  

A recusa de Leminski em se repetir, o que significaria escrever outros “catatais”, parece, foi pouco entendida por muitos. Pensamento ágil, inquieto e irreverente, o poeta se desdobrou em muitos leminskis, todos, porém, coerentes com as visões fundadoras de sua obra. Em vez de se tornar um vanguardista tradicional (coisa altamente contraditória e descabida), procurou penetrar no “território inimigo” utilizando várias frentes e múltiplos recursos. Essa coerência criativa pode ser percebida, por exemplo, no texto "Transmatéria Contrasenso", espécie de prefácio do livro Distraídos Venceremos (trocadilho zen com o bordão de esquerda "Unidos Venceremos"), em que explicita, mais uma vez, sua flecha lançada em direção a um alvo "longamente almejado: a abolição (não da realidade, evidentemente) da referência, através da rarefação". Como epígrafe ao livro, re-utiliza de maneira sintomática um trecho do próprio Catatau:

        

         "Que flecha é aquela no calcanhar daquilo? Pela pena, é persa, pela precisão do tiro, um mestre. Ora, os mestres persas são sempre velhos. E mestre, persa e velho só pode ser Artaxerxes ou um irmão, ou um amigo, ou discípulo, ou então simplesmente alguém que passava e atirou por despautério num momento gaudério de distração".

 

         De fato, nos melhores poemas do livro a rarefação se faz matéria volátil, água que escorre entre os dedos, perfume que resvala nas palavras e se dissolve na brisa, deixando nelas apenas o seu aroma, a lembrança de sua passagem. Os versos parecem fissuras, sulcos talhados na pele das páginas pálidas. Os choques e encadeamentos de sílabas tornam-se música e o pensamento dança entre as palavras, imprimindo acordes carregados de significados, intenso balé à beira do abismo. Como no poema “O par que me parece”, em que o poeta sonha uma língua quase mítica na qual tudo se desloca de lugar para assumir máximos significados — porém, o sonho desaba e resta apenas a imagem do seu duplo, refletida no espelho do silêncio:

 

                  Pesa dentro de mim

         o idioma que não fiz,

                  aquela língua sem fim

         feita de ais e de aquis.

                  Era uma língua bonita,

         música, mais que palavra,

                  alguma coisa de hitita,

         praia do mar de Java.

                  Um idioma perfeito,

         quase não tinha objeto.

                  Pronomes do caso reto,

         nunca acabavam sujeitos.

                  Tudo era seu múltiplo,

         verbo, triplo, prolixo.

                  Gritos eram os únicos.

         O resto, ia pro lixo.

                  Dois leos em cada pardo,

         dois saltos em cada pulo,

                  eu que só via a metade,

         silêncio, está tudo duplo.

        

          

         Distraídos Venceremos também foi malhado por parte da crítica brasileira. Muitos não perceberam o passo adiante na caminhada do poeta.

(terminha amanhã)



Escrito por ademir assunção às 10h33
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ARTILHARIA LIGEIRA PARA UM KAMIQUASE – TERCEIRA PARTE

 

Segue a terceira parte do “anseio” sobre Paulo Leminski, que comecei a publicar nesta espelunca ante-ontem.

 

 

Manuscrito de Paulo Leminski, publicado na revista K’an número 4, que eu editei

junto com Marcos Losnak e Rodrigo Garcia Lopes, em 1989, poucos meses após

a morte do kamiquase

 

A lógica virada do avesso

 

         A par das rebeliões comportamentais, da negação da persona do intelectual clássico, Leminski sabia da necessidade de uma outra rebelião: a rebelião da linguagem. É mais do que evidente em sua poesia, prosa e “anseios críticos”, o interesse não apenas em “escrever bem”, mas sim, em desestabilizar e modificar estruturas — na mesma medida expressa por William Burroughs em entrevista à Rodrigo Garcia Lopes, no livro Vozes & Visões: “Paul Klee disse uma vez que ‘a arte não reproduz o que vemos. Ela nos faz ver’(...) Ninguém jamais viu os girassóis do mesmo modo depois de Van Gogh. A arte cria novos valores e novos modos de ver, novas percepções”. 

         Com maestria, jogou toda a sua energia poética contra o racionalismo linear aristotélico/cartesiano. Judoca zenbudista, desconfiava da aparente “neutralidade” das palavras e remetia seus leitores à experiência concreta: a experiência com o próprio texto: em vez de refletir a realidade (como um bom escritor naturalista acreditaria), transformava a escrita numa realidade em si. Sem a perspectiva dessa consciência de linguagem é quase impossível compreender a totalidade da aventura poético-literária de Paulo Leminski.

        

No livro Anseios Crípticos, obra de um pensador da arte e da cultura, ele evidencia, em diversos ensaios, ou “anseios”, a gênese de sua estratégia de desestabilização de estruturas. No texto “Forma é poder”, identifica o apogeu do naturalismo (aquele tipo de escrita que se acredita reflexo da realidade) com a explosão do jornalismo na Europa, no século 19, representando o “triunfo da razão branca e burguesa”. “O discurso jornalístico é discurso automatizado”, escreve, e sua enxutez e objetividade são obtidas através de “uma tremenda repressão exercida sobre a fantasia mítica: é um discurso castrado.”

         O que os hindus chamam de Maya — aquilo que a percepção humana cria como status de realidade, e que, no fundo, não passa de ilusão ou, se muito, parte de realidades maiores e mais complexas — Leminski esclarece que, no Ocidente, a representação desta ilusão, através da linguagem, está condicionada por fatores históricos e obedece a um sutil sistema de repressão da insurgência da imaginação. O que vale dizer que, mesmo sob “conteúdos” que se rebelassem contra essa ordem repressora, o escritor naturalista utilizava uma estrutura de linguagem reprimida:

         “No discurso jorno/naturalista, o poder afirma, sob as espécies da linguagem verbal, a estabilidade do mundo, DE UM CERTO MUNDO (grifo do próprio autor), suas relações e hierarquias. O discurso, esse, em sua aparente neutralidade, é ideológico, embora invisível (ou por isso mesmo): é ideologia pura”.

         A necessidade de desautomatizar o uso da linguagem, produzir estranhamento e distanciamento, para desmascarar a falsa impressão de “objetividade” do discurso, se torna mais evidente em outro texto do mesmo livro, “Sem eu, sem tu, nem ele” em que o poeta afirma com todas as letras, em tom provocador: “Só os ‘idiotas da objetividade’, como dizia, genialmente, Nelson Rodrigues, imaginam que a literatura ‘reflita’ alguma realidade exterior a ela mesma. A arte do texto não é uma dependência do comércio de espelhos”.             E esclarece, de forma bastante evidente, o que se tornaria pedra fundamental em sua trajetória poética: “A principal influência sobre um texto literário são os textos literários anteriores. Uma suposta ‘realidade’ brasileira chegava de um jeito para um romântico, para um naturalista, para um modernista ou para um concretista. Tudo dependia dos modelos de linguagem dos quais cada autor saía. Esses modelos são construções ideologicamente determinadas, históricas, jogadas ensaiadas, como se diz no futebol.”

 

Munido dessa consciência sobre a história das formas, e marcado pela influência zen, Leminski segue uma trajetória bastante coerente, mesmo lidando com contradições inerentes a qualquer poeta ou escritor contemporâneo. Disposto a fugir da ilusão “refletora” da arte, seus poemas, conscientemente elaborados, vão se transformando em quase koans. As frases rápidas, carregadas de musicalidade e sentidos se encarregam de dar um nó no pensamento lógico/cartesiano e a escrita vai se tornando uma experiência que compreende cada vez mais uma totalidade corporal:

        

                  Quem nunca viu

         que a flor, a faca e a fera

                  tanto fez como tanto faz,

         e a forte flor que a faca faz

                  na fraca carne,

         um pouco menos, um pouco mais,

                  quem nunca viu

         a ternura que vai

                  no fio da lâmina samurai

         esse, nunca vai ser capaz.

        

         A estratégia já estava sendo semeada desde Catatau, o primeiro livro. Não por acaso o personagem central é Descartes. Assombrado pela paisagem tropical do Brasil, atacado pelo zumbido intermitente dos mosquitos e cercado por jibóias, antas e preguiças, o filósofo francês tenta decifrar o Novo Mundo. Em uma mão, traz uma luneta. Na outra, um cachimbo recheado de maconha — ironia do demônio polaco. Com seu pensamento lógico, imerso numa realidade desconcertante e, ao mesmo tempo, numa prosa repleta de abismos e armadilhas verbais, não consegue entender as falésias daquela realidade e espera alguém que lhe traga as explicações, como um personagem beckettiano "esperando Godot".

         Catatau, escrito durante longos oito anos, de 1966 a 1974, é um jorro lisérgico composto de um único parágrafo de 213 páginas (na edição original). Em uma de suas entrevistas, sempre provocativas, Leminski recomendou que o livro deveria ser lido sob efeito de LSD, acrescentando que se o leitor não quisesse experimentar “o barato”, tudo bem, o texto se encarregaria disso. A lógica cartesiana, representada por Descartes em pessoa, entra em parafuso, sob o efeito da erva e da paisagem tropical. Mas quem delira no livro, ou atravessa o portal de outras esferas, não é apenas o filósofo/personagem, mas o próprio texto, que representa, no fundo, seu fluxo de pensamento, monólogo interior imerso na neblina dos dias e noites maconhadas. Assim, o sacerdote da lógica como método de compreensão (“penso, logo existo”), continua pensando, mas logo desiste de compreender o Novo Mundo sob os velhos parâmetros. Assim mesmo, insiste: “O poliglota analfabeto, de tanto virar o mundo, ver as coisas e falar os papos, parou para pensar ao pé de uma montanha. Assaltaram-no dois pensamentos. Um na língua materna, outro em língua estrangeira. O primeiro fez a pergunta, o outro respondeu. Resultado: sou pai de minhas perguntas e filho de minhas respostas”.

         Assaltado pela anarquia simbólica dos nativos e pela algaravia tupi-afro-européia do continente, o filósofo segue aos trancos e barrancos, sempre a observar a realidade com sua luneta, incorporando provérbios populares, gírias surpreendentes e cacoetes sígnicos delirantes: “Para bem entender, meia palavra não é de besta nenhuma, bom entendedor faz o que bem entender: te projete de framboeza quando fraqueja, de brotoeja quando troveja, deus te proteja. Coro de palmas até tirar o couro de um palmo, adiante do nariz. Terravista, fim de festa: águavai... A mucosa das ventosas dos tentáculos das medusas contrai os testículos dos machos das hipotenusas, pipt.”

         E assim prossegue, em sua busca incansável, até começar a se divertir com o próprio desatino: “Chega de pensar. Vamos fazer as pazes, influenciar amigos, trazer ótimas novíssimas, levar os canos, levantar as velas, baixar as calças, vamos fazer alguma coisa, não vamos ficar aqui parados como outra coisa não tem feito os que aqui pisaram, um pé no chão outro pé na cara, quem, eu, ó no ó do seu bozó, no é do seu oboé, no u do seu cu, disse alguma coisa?”

         Obra ilegível para alguns, fonte de alta diversão (por que não?) para outros, amplamente ignorado pela maioria, Catatau é dos poucos livros brasileiros à altura de um Ulisses ou de um Finnegans Wake, de James Joyce. Conforme o crítico Leo Gilson Ribeiro, só encontra paralelos nacionais no Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa e nas Galáxias, de Haroldo de Campos. Com uma diferença: muito mais sarcástico, irônico e alegórico.   

(continua amanhã)



Escrito por ademir assunção às 00h38
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READY-MADE MACABRO
ou: um minuto para os nossos comerciais

Tudo está a venda nesse mundo “globalizado” e neoliberal. E fatos, para os comerciantes de notícias, são apenas mais uma mercadoria. Eles poderiam vender chips de computadores, caminhões-baús, mesas-cirúrgicas ou planos funerários. Vendem notícias. É só um ramo dos negócios. Há alguns anos, nos jornais, havia uma separação nítida entre a redação (o editorial) e o departamento comercial. Hoje tudo se misturou. É comum ver na capa dos cadernos de cultura apenas o título de uma matéria (que será apresentada na página 3) e o resto da página coberto por um anúncio. E é cada vez mais freqüente casos em que as notícias são explicitamente apenas mais um item da pauta de negócios. Isso acontece direto nos grandes portais da internet. Veja o caso abaixo: leia bem os links que estão no final da notícia publicada no UOL, sobre o acidente do avião da Spanair, hoje à tarde em Madri, em que morreram 150 pessoas (até agora) carbonizadas. O horror, o horror:

 



Escrito por ademir assunção às 18h49
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ARTILHARIA LIGEIRA PARA UM KAMIQUASE – SEGUNDA PARTE

 

 

Leminski e Alice Ruiz em Londrina (1985): atrás dele, Beto Coltro, à direita

Rodrigo Garcia Lopes, eu e Neusa. Ao lado da Alice, Janete el Haouli.

 

Segue a segunda parte do "anseio" sobre Paulo Leminski, que comecei a publicar aqui ontem:

 

Anartista na Idade Mídia

 

         Um pouco de contexto não faz mal a ninguém, ainda mais em se tratando de alguém que fez questão de alterar o texto para bagunçar o contexto: “Sou daqueles que se colocam dentro de uma perspectiva histórica” — disse em uma de suas primeiras longas entrevistas, a Almir Feijó (revista Quem, 1978).

Leminski nasceu em 1944, um ano antes da explosão da bomba atômica em Hiroshima. O cogumelo atômico estilhaçou definitivamente a realidade. E imprimiu um sentido de urgência à geração que veio ao mundo sob a sua enorme sombra ameaçadora. De repente, havia a impressão de que nada poderia ser deixado para o dia seguinte, simplesmente porque não havia mais certeza de que haveria o dia seguinte, como ele mesmo detectou no texto “Punk, Dark, Minimal, o Homem de Chernobyl”, do livro ironicamente intitulado Anseios Crípticos.

         O holocausto atômico não se resumiu à Hiroshima. Através das imagens (da fotografia, do cinema), explodiu no mundo inteiro. Com a tecnologia avançada dos meios de comunicação de massa, o planeta foi se tornando cada vez menor e uma nova era se instaurou, de maneira um tanto dramática. Bem-vindos à Idade Mídia.            

         Tudo começou a acontecer muito rapidamente, num século que já se inaugurara deslizando sobre os trilhos dos bondes elétricos e em poucas décadas fazia as notícias voarem pelos ares via satélite. Em Understanding Media, Marshall McLuhan escreve que "a velocidade elétrica mistura as culturas da pré-história com os detritos dos mercados industriais, o iletrado com o semi-letrado e o pós-letrado".

 

(segue abaixo)



Escrito por ademir assunção às 00h42
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         E onde está Leminski no meio dessa chuva de estilhaços? Em uma espécie de manifesto, abertura para uma antologia de poetas jovens à época (revista Pólo Inventiva, 1978), organizada com a poeta Alice Ruiz, ele se autositua, junto de seus pares de antologia, na "geração 68": uma geração marcada pela rebeldia contra cânones autoritários, por uma ampliação das experiências poéticas (e humanas), eletrificação da sensibilidade, inconformismo, utopias, mas também, já naqueles anos (conforme antevê com lentes precisas) sofrendo as conseqüências de um "acirramento da competição na luta pela sobrevivência, a níveis darwinianos".

         É bem esclarecedor o modo como o poeta focaliza alguns aspectos do contexto histórico e cultural em que aparece a "geração 68": "contestação, rebelião estudantil na França, ‘primavera em praga’,/ os ‘powers’ (black, red, gay, women's lib), a pílula, o aborto,/ o martírio do vietnã/ radicalização em sentido socialista, na américa latina,/ psicodelismo, zen, sociedade alternativa/ rock/ homem na lua, mcluhan, aldeia global, o meio é a mensagem/ contracultura".

         Essa consciência do seu "ponto de partida" está expressa em uma entrevista à Régis Bonvicino (jornal GAM, 1976), na qual evidencia seu ímpeto de interferir em grandes contextos culturais, através de uma atuação crítica-criativa no jornalismo, nas letras de música, nos poemas em videotexto: "Não dá mais tempo para ser ingênuo. Puro. Inocente. Perante a investida multinacional da tecnocracia, tem que responder com uma plena consciência dos meios, códigos e linguagens".

         Tudo somado, o sentido de urgência e a necessidade de rebelião marcaram profundamente sua poesia. É da primeira safra o poema

 

         nunca quis ser

         freguês distinto

         pedindo isso e aquilo

         vinho tinto

         obrigado

         hasta la vista

 

         queria entrar

         com os dois pés

         no peito dos porteiros

         dizendo pro espelho

         — cala a boca

         e pro relógio

         — abaixo os ponteiros

 

         O fraseado rápido, telegráfico, musical, salta sobre o peito dos porteiros e os ponteiros do relógio (dois símbolos repressores, um, de “segurança”, mastim da propriedade privada, outro, de contagem do tempo e organização do trabalho industrial), surpreendente como o golpe de espada de um samurai. O poeta recusa a persona de bom-moço, educado, “freguês distinto”, “homem cordial” e chega provocando tumulto. Um tumulto simbólico, sígnico, tatuado com boa dose de deboche. O mesmo tom está impresso em outro poema da mesma fase — este marcado ainda mais por um tumulto intravenoso — no qual demonstra sua malandragem no trato com a "função poética": 

 

         pariso

         novayorquizo

         moscoviteio

         sem sair do bar

 

         só não levanto e vou embora

         porque tem países

         que eu nem chego a madagascar

 

         Num lance "quase chinês", o poeta transforma substantivos em verbos ("pariso", "novayorquizo", "moscoviteio") dando um autêntico giro pelo planeta sem sair do próprio terreno da linguagem — ao contrário: contraindo-a ao máximo. Em duas breves estrofes inventa neologismos, provoca deslocamentos semânticos, com os substantivos assumindo outra função, desestabiliza o discurso lógico, e iconiza o estado de embriaguez: o próprio poema parece estar bêbado. E ainda insere, entre os pequenos acidentes etílicos dos versos, uma de suas marcas registradas: o humor, o nonsense.

         São muitos os poemas da primeira fase com este espírito stop making sense, certamente bebido na fonte zen, através dos estudos teóricos e da prática do judô. Sua poética, já neste período, bate de frente com a advertência de Aristóteles: “é impossível à mesma coisa, ao mesmo tempo, pertencer e não pertencer à mesma coisa e ao mesmo sentido”. Ao contrário da reta aristotélica, e suas conseqüências na linguagem, o poeta foca sua grande angular nos aforismos de Chuang-tzu: “O que é um é um. O que é não-um também é um”. E sai driblando como um Garrincha, entortando zagueiros e estabelecendo um outro tipo de jogo, inovador e desconcertante:

        

         aqui

 

         nesta pedra

 

         alguém sentou

         olhando o mar

 

         o mar

         não parou

         para ser olhado

 

         foi mar

         pra tudo quanto é lado

 

         Se Oswald de Andrade foi um dos primeiros a incorporar em sua poética a rapidez dos anos inaugurais do século 20, e os poetas concretos a perceber a simultaneidade dos novos tempos, Leminski já faz parte de uma geração que teve a sua sensibilidade "reprogramada pelos modernos meios de comunicação de massa", como teorizou McLuhan, dando um passo além ao clássico ensaio de Walter Benjamim, "A Obra de Arte na Era da sua Reprodutibilidade Técnica". Talvez seja o primeiro poeta brasileiro, junto com Torquato Neto no jornalismo e nas canções, com plena consciência de que o mundo estava irremediavelmente interligado via satélite. Nisso, não há uma adesão a-crítica, mas uma percepção de que "os tempos já eram outros".

(continua amanhã)



Escrito por ademir assunção às 00h41
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SEMANA PAULO LEMINSKI

 

 

No próximo domingo (24 de agosto), Paulo Leminski completaria 64 anos. O kamiquase faz uma falta danada. Toninho Vaz organizou uma comemoração em Curitiba. Eu vou publicar durante esta semana, em cinco partes, aqui, nesta espelunca, um “anseio críptico” que escrevi sobre ele. Saiu no livro A Linha que Nunca Termina, organizado pelos poetas André Dick e Fabiano Calixto. Mas nem todo mundo conhece. Em crítica sobre o livro, na Folha de São Paulo, o professor Paulo Franchetti disse que se tratava de um “ensaio escolar” (ah, ah, ah). Segue a primeira parte:

 

ARTILHARIA LIGEIRA PARA UM KAMIQUASE

ou: dribles curtos e passes longos para um craque da poesia

 

 

 

Eu já fui transparente. Às vezes, quando deixo de trabalhar,

fico transparente de novo. Mas normalmente sou cheio de cores.

Artur Bispo do Rosário

 

 

         Paulo Leminski tinha pressa, muita pressa (mas não aquela pressa competitiva, tão em moda nos tempos de yuppismo globalizante do final dos anos 80 e começo dos 90 — e que ainda ecoa no início do século 21). Talvez porque percebesse desde sempre que seria chamado mais cedo pelos deuses. Muito também porque era dono de uma personalidade intensa, ligada o tempo todo, marcada por um sentido de urgência.

         Essa personalidade eletrificada, de um poeta em tempo integral, transparece em toda a sua obra. Em Leminski, o foco de interesses não está centrado num cânone rígido e restrito. Sua multiplicidade atrai referências de diversas épocas e culturas: da poesia clássica chinesa ao blues afro-americano, da patafísica de Jarry ao vigor samurai de Yukio Mishima, dos clássicos gregos ao rock'n'roll, do haicai japonês ao tropicalismo, de Cruz e Souza a Leon Trotsky, de James Joyce a John Fante, de Samuel Beckett à Cartola, de poemas do Egito Antigo ao videotexto, do supraerudito ao supremo popular, do universo cósmico de uma biblioteca aos movimentos mundanos.

         Não se confunda essa capacidade imantadora com um simples ecletismo oportunista. Não. Ciente de que arte e cultura são matéria viva, para vivos, Leminski soube construir pontes, estabelecer links entre ricos tecidos culturais. O poeta orgulhava-se das canções que tinha composto, sozinho ou em parceria, muitas transformadas em verdadeiros clássicos na voz de Itamar Assumpção, Caetano Veloso, Moraes Moreira ou Ney Matogrosso. Orgulhava-se também de pertencer à geração que pretendeu “derrubar as estantes, as estátuas, as vidraças”. Por outro lado, cultivava um profundo rigor e erudição, herdados da familiaridade com os grandes textos da humanidade, de Ovídio a James Joyce. Intelectuais de primeira grandeza, como Haroldo de Campos, perceberam rapidamente a peculiar originalidade de sua poesia: o hábil artesanato aliado à urgência e à rebeldia de um Frank Zappa ou dos Rolling Stones. Onde houvesse inconformismo, densidade, criatividade extremada, lá estava ele. Dono de vastíssimo repertório, está decibéis acima do neochique intelectualismo (reaça pra caralho) que grassa e glosa pelas plagas brasileiras.

         Embora muitos tentem minimizar a sua importância, ora situando-o como um simples apêndice concretista ou tropicalista, ora como um mero frasista de espírito polêmico (o que disseram de Oswald de Andrade?), ou ainda apontando dedos para um suposto looping decadente no final de sua breve vida, o tempo e a ação crítica das novas gerações certamente vão recolocá-lo em seu devido lugar: como um dos poetas brasileiros fundamentais do século 20.

         Mas de afirmações de “maior poeta”, “um dos mais importantes”, e coisas do tipo, o inferno está cheio. O importante é saber: por que Leminski tem tal estatura?

(continua amanhã)



Escrito por ademir assunção às 10h35
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EM PLENO DOMINGO

 

Um pensamento confucciano me assaltou o juízo logo pela manhã: “Alguns fantasmas a gente mesmo cria. Outros existem de verdade e precisam ser enfrentados.”

 

E um haicai de Paulo Leminski para emoldurar esse domingão de sol:

 

nuvens brancas

            passam

            em brancas nuvens



Escrito por ademir assunção às 14h19
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