Mais um poema do meu primeiro livro LSD Nô (1994). Musicado por Madan, foi gravado nos cds A Ópera do Rinoceronte (dele) e Rebelião na Zona Fantasma (meu).
Fui ontem no bate-papo no estande da Volkswagen na Bienal do Livro. Marcelo Tápia ficou preso no trânsito e não conseguiu chegar. Uma pena. Ficamos eu e Donny Correia (me entrevistando) diante de uma platéia interessada. Quero deixar bem claro: fui em consideração à Claudio Daniel (a quem respeito como poeta, agitador e amigo), que está sempre procurando abrir espaços não só para a poesia dele, mas para a dos outros também. E a Frederico Barbosa e Donny que estavam imbuídos da mesma boa intenção. Fui em respeito ao público que estava interessado em me ouvir. Mas fiz questão de falar tudo o que escrevi aqui nessa espelunca (no texto Quem é que paga por isso?, mais abaixo). No mais, foi uma conversa muito boa sobre linguagem poética, visões de mundo, etc e tudo.
Algumas pessoas me mandaram email sobre o texto Quem é que paga por isso? (logo abaixo). E me autorizaram a publicar nessa espelunca. Acho bom isso. Tem mais gente interessada nessa conversa. Separei quatro, que acho bem significativos e são de pessoas que também estão pensando sobre isso:
“Dá-lhe, Ademir, gostei da lógica inversa - quanto pior, melhor! é o que venho repisando ao longo de dois anos em todas as minhas colunas no www.congressoemfoco.com.br - o problema é que toda essa "arte" pop, comercial, lixo (música, artes plásticas, cinema, literatura, teatro,etc.), essa arte que deixou de ser arte para se tornar "entretenimento", sem compromisso com o "fazer" (artista/artesão é quem sabe fazer muito bem alguma coisa) e apenas com o "aparecer" (imagem, simulacro), aparentar, fazer de conta, é o veículo ideológico do neoliberalimo, essa cultura é a ideologia do Pensamento Único. Bom debate, cara, vamos plantar essas sementes, que são amargas mas curam essa inconsciência generalizada. Márcia Denser”
“Querido poeta Ademir, você tem razão, é isso mesmo. Acho que escritores, poetas, críticos e leitores que levam a coisa a sério (e que existem, em bom número, embora sempre um pouco à margem) concordarão com você, em quase tudo. Você sabe que você não está - nenhum de nós está- sozinho, falando com as paredes. Hoje você estará lá, na companhia do Marcelo, o que é duplamente bom, embora não seja suficiente para compensar o descaso geral, que você assinala. Gostaria de estar lá também, por todos os motivos, mas na mesma hora tenho um compromisso de trabalho a cumprir. Você sabe, a sobrevivência... que nem a poesia nem a crítica, no meu caso, são capazes de garantir. Então lhe peço: tire da oportunidade o melhor proveito possível, por todos nós. Sinta-se fraternalmente abraçado, e estenda o abraço ao Marcelo e ao Bivar. Carlos Felipe Moisés”
“Ducaralho, Ademir! Uma reflexão profunda sobre a circunstância que vivemos. Dia 30 vou estar numa mesa no Festival Recifense de Literatura e quero repercutir o teu texto porque vamos, mais uma vez, discutir a distribuição do livro. A indústria é, sobretudo, uma fonte de concentração de renda e, portanto, excludente, parceira da miséria em todos os níveis. Parabéns pela lucidez. Acho que este debate precisa ser feito e, mais uma vez, vc se mostra combativo nesta luta. Um putabraço! Lau Siqueira”
“é isso mesmo, ademir! concordo com tudo, totalmente certo o que você falou. dá-lhe, irmão. meu, se você permitir, gostaria de publicar no vaia (a edição está sendo revisada, mas sabe como é, até mandar pra impressão a gente troca, corta, acrescenta etc) impresso esse seu texto, que tem que ser propagado. abraço, fernando ramos (www.jornalvaia.com.br)”
Marcelo Montenegro, Pierre Massato e Marcelo Sahea também escreveram sobre o assunto em seus blogues. Aqui, aqui e aqui.
Hoje vou participar de um bate-papo e de uma leitura de poemas, ao lado de Marcelo Tápia, com mediação de Donny Correia, na Bienal do Livro. A partir das 19h30, no estande da Volkswagen.
Eu vou lá para falar de coisas que levo muito a sério: linguagem poética, visões (e alucinações) de mundo, e vou ler alguns poemas. Mas eu quero falar também de algumas coisas que continuam me preocupando. Cada vez mais.
Talvez por conta desses megaeventos como Bienal do Livro e Festa Literária de Paraty, muita gente pensa que escritores e poetas vivem num mundo de glamour. Bobagem. Literatura exige talento, vocação, seriedade, e também trabalho. Muito trabalho. Ralação. E escritores e poetas são tratados cada vez mais como trabalhadores altamente desqualificados. São cada vez menos respeitados. Na indústria do livro, todos ganham (do gráfico ao editor), menos o escritor, menos o poeta. Essa é que é a verdade. Pergunte a um escritor e a um poeta quais são seus direitos. Nenhum.
Noventa por cento do que é vendido, ou que movimenta a Bienal do Livro, é lixo. Digam a verdade. Não me venham dizer que ler livros de merda é bom, que pelo menos cria o hábito de leitura. Todo mundo sabe que não é verdade. Também não me digam que o aumento das vendas da indústria editorial é bom para os escritores e poetas, porque faz com que as editoras possam investir em literatura e poesia de verdade. Conversa pra boi dormir. Esse lixo editorial atrapalha os escritores, os poetas, o público, o país. O público é enganado. O nível cai à estaca abaixo de zero. Quem é acostumado a ler livros enganadores jamais vai gostar de literatura e de poesia de verdade, porque isso exige maior sofisticação, maior cuidado, tanto de quem faz quanto de quem lê. Literatura não ensina ninguém a ser feliz, não traz promessas artificiais de como se dar bem na vida. Literatura e poesia, ao contrário, trazem questionamentos, visões críticas, desconforto até, principalmente num mundo tão injusto, tão esquizofrênico, tão desconfortável.
É por isso que quando apresentamos nossos livros aos editores, principalmente se for um livro de poesia, freqüentemente ouvimos: isso não vende. Por que? Porque estão acostumando os leitores com coisas fáceis, com coisas imbecis. Então, a lógica funciona ao avesso. Quanto mais os livros imbecis vendem, mais a literatura e a poesia de verdade são estranguladas. Isso está acontecendo em escala escandalosa na música. Liguem o rádio, liguem a TV, pra ver se estou falando bobagem. Quando o nível cai abaixo de zero, isso só é bom para quem se pauta apenas por interesses comerciais.
Ninguém vai me convencer que os enlatados americanos fabricados diariamente por Hollywood vão preparar o espectador para um filme de Cassavetes, de Sérgio Leone, de Jim Jarmush, de Kurosawa. Não vão. Ao contrário, vai ter cada vez menos espaço para diretores como esses.
E quem perde com isso? O país. Que vai tendo sua cultura cada vez mais desmilingüida. O público. Que é enganado. E os artistas de verdade, que têm cada vez menos espaço.
Quando se fala em literatura russa se pensa logo em Dostoievski, em Tolstoi, em Tchecov, em Maiakovski, e certamente tem um punhado de autores contemporâneos, produzindo literatura crítica, densa, profunda, que não conhecemos.
E quando se falar em literatura brasileira perante o mundo, vamos falar de quem?
Na indústria editorial, o elo mais fraco é justamente quem produz. É o escritor. É o poeta. Se for crítico, denso, elaborado, então, aí está condenado ao limbo profundo, ao desespero, ao desrespeito total. Viu, ministro Juca Ferreira? Viu, donos de jornais? Viu, editores? Viu, leitores? Isso é sério. Nos ouça.
O escritor e o poeta brasileiros estão sendo calados dentro do próprio país. O que fazem não repercute. Não é debatido. Não alcança o espaço público de verdade. Por conta de toda essa embromação. E some-se aí a total irresponsabilidade das mídias tradicionais. E o silêncio da universidade.
E os próprios escritores e poetas também são responsáveis por isso. Porque não se posicionam, não criticam, não apontam o que está errado, não levantam a voz. Não se fazem respeitar. Se nós não nos respeitamos, vamos esperar que os leitores nos respeitem? Nos leiam? Como?
Isso é sério. Isso é grave. Ou não?
Então eu vou lá na Bienal para falar de poesia, daquilo a que me dedico há mais de 30 anos. Mas vou lá para falar disso também. Para dizer que não concordo. Para dizer que é preciso mudar esse quadro.
Aliás, eu vou lá trabalhar (não vou lá me exibir como um pavão). E eu deveria receber por isso. Ou será que a Volkswagen, que tem um estande na Bienal do Livro, não tem dinheiro para pagar os escritores e poetas brasileiros que vão lá trabalhar?
E vou fazer um pedido público aqui: quem achar que não estou falando besteira, quem achar que esse debate merece ser travado, repercuta isso. Fale. Se posicione. Espalhe. Falar com as paredes é a pior das sensações.
Noves fora, a programação prossegue nos dias seguintes. Sempre às 19h30.
16/08, sábado
Entrevista com os escritores Santiago Nazarian e Índigo e apresentação de Andréa Del Fuego
17/08, domingo
Entrevista e recital com os escritores Paloma Vidal e Márcia Bechara e apresentação de Claudiney Vieira
18/08, segunda-feira
Entrevista e recital com os poetas Donny Correia e Danilo Bueno e apresentação de Tatiana Fraga
19/08, terça-feira
Entrevista com os poetas Paulo Ferraz e Marcelo Montenegro e apresentação de Greta Benitez
20/08, quarta-feira
Entrevista e recital com os poetas Andréa Catrópa e Rafael Daúde e apresentação de Donny Correia.
21/08, quinta-feira
Entrevista e recital com as poetas Tatiana Fraga e Greta Benitez e apresentação de Frederico Barbosa.
22/08, sexta-feira
Entrevista e recital com o prosador Claudinei Vieira e o poeta Rui Mascarenhas e apresentação de Claudio Daniel.
23/08, sábado
Entrevista e recital com os poetas Ana Rüsche e Allan Mills e apresentação de Tatiana Fraga.
“há muito cultivo com certo enfado o desprezo pelos jogos pequenos e mesquinhos do dia-a-dia: o rateio do poder, a bajulação, a batalha hierárquica pelo melhor computador & a melhor salinha & a melhor secretária. o combate diligente às idéias novas e à ousadia (o poder é o sexo dos velhos, já dizia leminski). o desprezo pela pequena história, pelas histórias invisíveis. a impaciência e o deboche com os mais humildes e sem chance. os falsos progressistas que, escondidos atrás de uma cortina de mentiras, dizem pelear em nome da objetividade.”
Em 1991 a barriga da Simone, a mãe dos meus filhos, crescia a olhos vistos. Eu estava duro, mas não queria fazer o jornalismo que queriam que eu fizesse. Estava exilado do jornalismo. E então escrevi este poema:
Marcelino Freire lança hoje o novo livro Rasif – Mar que arrebenta lá no B_arco (rua Virgílio de Carvalho Pinto, 426 – Pinheiros), 19 horas. Uma entrevista com Marcelino aqui.
MESTRE CHACAL
Chacal inicia curso sobre poesia oralizada, poesia no palco, poesia entoada (coisa que ele faz há mais de 30 anos), sábado agora. Ainda há vagas.
Claudio Daniel, além de excelente poeta, é daqueles que não trabalham só para si. Vive organizando eventos poéticos, antologias e leituras críticas da sua geração. E agora ele é o novo diretor da Casa das Rosas. E hoje começa o primeiro evento organizado por ele na nova direção: o ciclo mensal Poetasde Cabeceira, com um bate-papo informal com o escritor Marcelino Freire, que falará sobre o seu autor predileto: Manuel Bandeira. Às 19 horas, lá no casarão da avenida Paulista, 37.
Terça-feira (12) tem o lançamento do livro-peça Nossa Vida Não Vale Um Chevrolet, de Mário Bortolotto, antes da pré-estréia do filme Nossa Vida Não Cabe Num Opala (baseado na peça). Porra, ficou um troço meio esquizofrênico: um vai de Chevrolet, outro de Opala. O diretor do filme poderia ter tornado tudo mais simples, não é? Bom, no pacote, vai ter ainda um show com a banda do Mário, Saco de Ratos. Lá no Reserva Cultural (av. Paulista, 900), a partir das 20h30.
Na terça começa também o ciclo de debates Cartografia Web Literária, organizado pelo site Cronópios. A idéia é discutir o papel dos blogues, sites e revistas virtuais na difusão da literatura. No Sesc Consolação. Programação completa aqui.
E em Belo Horizonte tem lançamento do livro mais recente de Luiz Roberto Guedes: O Mamaluco Voador.
Na quarta (13), lançamento do novo livro do jornalista e escritor Humberto Werneck: O Santo Sujo – a vida de Jayme Ovalle. A partir das 19h30 tem um bate-papo entre ele (Werneck) e Fernando Moraes. Na Livraria da Vila (Rua Fradique Coutinho, 915 – Vila Madalena). O livro sai pela Cosac Naif, que está organizando um mini-ciclo de debates sobre “jornalismo literário”. Os caras colocam João Moreira Salles e Matinas Suzuki Jr. para falar de "jornalismo literário"! Caralho, será que estão pensando que todo mundo no Brasil já está com os neurônios completamente derretidos pela lavagem cerebral da tal "cultura de mercado", subsidiada pelo capital financeiro? De qualquer modo, confira programação aqui. E uma entrevista com Werneck (esse sim, jornalista de verdade) aqui.
Na quinta (14), Marcelino Freire lança Rasif – Mar que arrebenta. Marcelino dispensa apresentações. A partir das 19 horas, no B_arco (rua Vírgilio de Carvalho Pinto, 426 – Pinheiros).
Na sexta eu participo de um debate organizado pela Casa das Rosas na Bienal do Livro. Eis a programação completa do ciclo:
14 (quinta-feira):
Poesia Brasileira Contemporânea, com Claudio Daniel e Vicente Pietroforte
15 (sexta):
Entrevista com os poetas Ademir Assunção e Marcelo Tápia. Apresentação: Donny Correia
16 (sábado)
Entrevista com os escritores Nelson de Oliveira e Índigo. Apresentação: Andréa Del Fuego
17 (domingo)
Entrevista com os escritores Paloma Vidal e Márcia Bechara. Apresentação: Claudiney Vieira.
18 (segunda)
Entrevista com os poetas Donny Correia e Danilo Bueno. Apresentação: Tatiana Fraga
19 (terça)
Entrevista com os poetas Paulo Ferraz e Marcelo Montenegro. Apresentação: Greta Benitez.
Todos serão a partir das 19h30, no estande da Wolkswagen. Wolkswagen? Esquisito, né?