| ESPELUNCA - blogue de ademir assunção |
ATIRE NO DRAMATURGO EM LONDRIX

Meu amigo Mario Bortolotto lança hoje no Londrix – Festival de Literatura, o livro Atire no Dramaturgo, uma seleção dos textos que ele vem publicando em seu blogue nos últimos quase três anos. O blogue do Mário é uma das minhas leituras diárias. Ali encontro textos que me dão muito mais prazer e informações do que a maioria dos publicados nos grandes jornais. Mário é umas das antenas da minha geração. No Londrix estão rolando shows de música e poesia de Nei Lisboa, Marcelo Montenegro e do próprio Mário Bortolotto. E uma porrada de discussões com escritores e poetas de primeira. Se não estivesse com o pé quebrado, pegaria um buzão e aportaria lá. E parabéns para Christiane Vianna e Marcos Losnak (e mais todo mundo envolvido na organização) por mais esse Londrix. Londrina que já tem o FILO – Festival Internacional de Teatro, vai se firmando também com esse festival de literatura da melhor qualidade.
Pra quem não sabe, Londrix é a forma carinhosa como chamávamos a cidade de Londrina nos loucos anos 80. Há contravérsias sobre a origem do nome: eu acho que fui eu que inventei, depois de engolir umas pílulas de tandrilax (um relaxante muscular) com doses generosas de vinho. Lembro que escrevi Londrix várias vezes em artigos na Folha de Londrina. O poeta e amigo Nelson Capucho acha que foi ele que inventou. Pode ser que eu tenha visto em algum livro dele (Sunday & Cogumelo, talvez) e adotei. Não é fácil lembrar. Quem sabe um dia um historiador desvende o mistério, imerso em ondas de fumaça, chás e pílulas amarelas.
Escrito por ademir assunção às 10h03
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POEMAS E BIOGRAFIA DE TORQUATO NETO

Meu amigo Toninho Vaz é o convidado do projeto Autor na Praça deste sábado (23). Ele autografa Pra Mim Chega – A biografia de Torquato Neto. Toninho me convidou pra ler poemas de Torquato, ao lado de Claudio Daniel, Tatiana Fraga e Valéria Tarelho. Não sei se vai dar. Meu pé tem me dado trabalho. Tô preferindo ficar no estaleiro. Mas se acordar legal no sábado, apareço por lá. A poesia de Torquato é puro sangue quente e vale a pena o sacrifício. Em todos os sentidos. O borogodó começa às 15 horas. No final da tarde (17h30) tem performance com o grupo de teatro Cia. Antropofágica e apresentação musical com a extraordinária Neuza Pinheiro, A Pequena Japonesa e Denis Brandão, cantando músicas do Nosferatu de Teresina.
Um poema dele (pra quem ainda não conhece):
LITERATO CANTABILE
Agora não se fala mais toda palavra guarda uma cilada e qualquer gesto é o fim do seu início: agora não se fala nada e tudo é transparente em cada forma qualquer palavra é um gesto e em sua orla os pássaros de sempre cantam assim, do precipício:
a guerra acabou quem perdeu agradeça a quem ganhou. não se fala. não é permitido muda de idéia. é proibido. não se permite nunca mais olhares tensões de cismas crises e outros tempos está vetado qualquer movimento do corpo ou onde que alhures. toda palavra envolve o precipício e os literatos foram todos para o hospício. e não se sabe nunca mais do fim. agora o nunca. agora não se fala nada, sim. fim, a guerra acabou e quem perdeu agradeça a quem ganhou.
Escrito por ademir assunção às 12h59
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RETORNO

em Mannheim era sempre a mesma coisa: começar com algumas cervejas numa mesa na avenida, às dez da manhã, sentado com um casal de amigos alemães, nada mais para fazer; algumas cervejas chamam mais algumas cervejas.
era preciso alguma coisa para curar a noite anterior. a noite fora péssima, de acordo com minha namorada. eu cantava e gritava, estrelava no banheiro, uma grande câmara de ecos: “EVERYTHING DIES! BLACKBIRDS DIE! BYE, BYE, BLACKBIRD! MAKE MY BED AND LIGHT THE LIGHT...!”*
o gerente do turno da noite nos ligou três vezes.
agora, mais cerveja. agora, algum vinho branco. tenho que curar a noite. e então ir para a cama cedo.
nunca nada para comer. na hora em que você se levanta a cozinha do hotel está fechada. na Alemanha tudo vive fechando. os cafés fecham lá pelas duas ou cinco da tarde. às cinco você está bêbado demais para comer. a Alemanha é muito mais bêbada que os Estados Unidos. até os abstêmios bebem vinho porque não se pode beber a água. quase todo mundo na Alemanha é rico; os pobres morrem de sede.
os bares são mais barra-pesada na Alemanha do que no leste de Los Angeles, freqüentados por gangues de Neo-nazis com seus cães assassinos. se você quiser ir no mictório é melhor sorrir, acenar, abanar a cabeça, piscar para eles, senão...
nada para fazer senão beber e esperar que o sol se ponha e que o sol se levante.
(continua)
Escrito por ademir assunção às 12h36
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ou descobrir-se em algum pequeno café no alto das colinas perto dos vinhedos, às vezes depois da uma da manhã ou duas da manhã ou três da manhã, onde você come lesmas, salsichas e aspargos pelo preço de uma semana de salário. as pessoas com você parecem satisfeitas; mas para você não é tão interessante ou agradável. porque no fim das contas você vai cagar tudo mesmo.
uma coisa que você aprende, você tem que aprender: você deve parar de pensar muito: todas as descidas de barco pelo Reno cheias de americanos gritando, cérebros fotográficos carregados com filme queimado, todas aquelas viagens em trens de brinquedo para lugar algum — olhando pela janela tudo tão limpo e nítido; telhados coloridos passando e embaixo de cada telhado provavelmente um inferno particular para cada um dos que estão lá dentro.
você pára de pensar porque pensar simplesmente não é útil por ali. você se agarra a um único pensamento: que você vai embora, finalmente, depois de ter feito sua parte com as editoras e os editores e a namorada.
e finalmente você vai mesmo embora, levando malas demais, a maioria delas dela, parado no saguão, no balcão, pagando com milhares e milhares de Marcos Alemães, se sentindo estuprado e pilhado pelos Hunos; o gerente noturno agora está apagado; o gerente diurno, cordial, curvando-se, com classe e cultura — “acho que ele é o dono daqui”, minha guria sussurra, “e acho que ele simpatizou com a gente.”
isso é bom, isso é bom, a camareira apressada, ganhando outra gorjeta pelo que havíamos esquecido no quarto. “oh, dê mais que isso para ela, ela foi tão gentil com a coisa do suco de laranja!” então, eu lhe dou mais.
estamos todos abraçando, abraçando uns aos outros, vamos em direção à saída, arrastando malas sobrecarregadas, abraçando, sorrindo, abanando. estou envergonhado.
(continua)
Escrito por ademir assunção às 12h35
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e então para o aeroporto. polícia alemã, rígida, parecendo assustada mas pronta, parada com os dedos nos gatilhos dos rifles. estão em um pânico de vigília. coisas estranhas andam acontecendo no mundo; há coisas como terrorismo para se combater agora.
acenando, acenando para amigos alemães, e quando estamos lá em cima e voando, rapidamente a terra cai.
pergunto à aeromoça quanto tempo falta para a primeira bebida e a puta me ignora. afastando-se pelo pesadelo, me mostrando sua bunda, suas partes traseiras. ela provavelmente é uma boa garota em casa, brinca com o cachorro, boa para sua mãe, chupa seu namorado mas voando pelo espaço, ela é o inimigo.
minha namorada está no meu ombro, está chorando, “oh, eu odeio ir embora! estava tão bom! tão bom!”
a pior coisa pra mim é não ter ninguém com quem falar quando algo óbvio deve ser dito; mas daí se eu tivesse isso algo mais estaria faltando, e eu seguro a aeromoça na próxima vez que ela passa e ela diz, “sim, sim, eu trago sua bebida daqui a pouco!”
voando para a terrível América, meu mundo voltando ao normal.
*”Tudo morre!/ Os pássaros pretos morrem / tchau tchau, pássaro preto! Preparem minha cama e acendam a luz...!”, Bye bye blackbird é música de 1926 escrita por Mort Dixon, com Melodia de Ray Henderson, muito popular na cena jazz e blues de Boston dos anos 30 e regravada por muitos artistas desde então (nota dos tradutores).
Charles Bukowski, no livro Vida Desalmada (Spectro Editora) Tradução de Fábio Soares e Gerciana Espíndola
Escrito por ademir assunção às 12h31
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QUAL CHEFÃO?
Otávio Frias Filho escreveu um editorial violento hoje na Folha. Chama Lula de chefão. O chefão de uma máfia sindical-partidária. Acusa essa “máfia” de tentar “chantagear” adversários. E chama o episódio da compra do dossiê sobre Serra de “dossiêgate”. Como um sujeito bem informado sobre semiótica e linguística (e, por extensão, sobre manipulação de informações), Frias Filho sabe muito bem o peso de dar nome às coisas. Mas, convenhamos, dossiêgate... faltou originalidade
Óbvio que a imprensa tem que informar, investigar, denunciar, opinar — é pra isso que ela deveria existir. Agora, engraçado é que não vejo uma linha na Folha (nem em lugar nenhum) sobre o conteúdo da matéria que saiu na Istoé, com a chamada de capa “Os Vedoin acusam Serra: ‘Quando Serra era Ministro, foi o melhor período para nós’”. As denúncias são graves. Mas elas não interessam à Folha, que comunga com os ideais tucanos: privatizações, estado mínimo, choque de capitalismo. Talvez nem todos os leitores do jornal percebam isso.
Engraçado é que ao afirmar que Lula é o chefão de uma máfia que tenta chantagear adversários, Frias Filho em nenhum momento lembra das chantagens contra Lula durante quatro eleições: 1) dossiê Miriam Cordeiro, 2) a camiseta do PT enfiada na marra no seqüestrador de Abílio Diniz; 3) o anúncio da fuga de empresários do país caso Lula ganhasse; 4) Regina Duarte na televisão dizendo que “tinha medo” da vitória de Lula.
A truculência verbal da Folha (com os funcionários de alto escalão cumprindo à risca as ordens do chefe) é intimidatória e tem um motivo. O motivo: Serra caiu dez pontos desde o início da campanha e Mercadante subiu 12. E Lula se mantém no mesmo patamar — mesmo com as incessantes bordoadas. É verdade que o Estadão simpatiza com Alckmin muito mais do que a Folha. Mas Lula se reeleger e a mais remota possibilidade de Serra perder em São Paulo, isso não. A luz vermelha acendeu. A intimidação: os milhões de brasileiros que votam em Lula ou são idiotas ou são bandidos coniventes — é o que a Folha vem insistindo.
Pois bem: eu vou votar em Lula.
Porque eu não tenho a mesma visão de mundo da aliança PSDB-PFL: estado mínimo, privatizações, o mercado é quem manda e quem fica de fora é porque é desqualificado, arcaico, ignorante, e se der muito trabalho, novas penitenciárias estão sendo construídas e ponto.
Porque eu não penso como eles e não estou no mesmo lado deles. E sei que se for preciso manipular, conspirar e derrubar, eles não vacilam. Eles sempre fizeram isso.
Eu vou votar em Lula justamente por não ser idiota nem bandido conivente.
PS: Otávio Frias Filhos termina seu artigo com essa pérola: “Se houver segundo mandato, haverá muito trabalho para o Ministério Público, para o Judiciário e para o que restar de imprensa independente “’neste país’”.
Imprensa independente? Aonde?
PS2: Diante da possível vitória de Lula no primeiro turno, Frias Filho escreveu em editorial na última semana de agosto: “É evidente que a decisão do eleitor será soberana (não existe um Carlos Lacerda propondo melar as regras do jogo). Mas se o veredicto for esse, dispensando o segundo turno, a afoiteza do eleitor terá prejudicado a qualidade democrática desta eleição (grifo meu).”
Gozado é que em nenhum trecho do editorial, Frias Filho afirma que a possível vitória de Serra no primeiro turno também seria prejudicial à “qualidade democrática desta eleição”. Por que Lula no primeiro turno seria prejudicial, e Serra, não — isso Frias Filho não explica. Nem por que o eleitor de Lula seria “afoito” e o de Serra, não — isso também a Folha Não Explica.
Por fim, não tem como deixar de lado o comentário: a insistência de Frias Filho em Carlos Lacerda dá até calafrios.
Escrito por ademir assunção às 18h32
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ABERTO A NOITE TODA
num trem em algum lugar da Europa, bebendo o último drinque, a
noite e a insônia por perto, cansado de olhar pequenas vilas
que passam habitadas por pessoas sensatas o suficiente para ficarem em suas
próprias camas (um bom lugar para suportar a vida e esperar por nada além
disso).
ela está dormindo no seu ombro enquanto você tenta desejar que
o meio copo de vinho em sua mão se transforme em um copo cheio
enquanto você também deseja estar em qualquer lugar menos aqui.
viajar expande os horizontes, dizem, mas não é verdade, viajar reduz,
confunde, diminui, inunda desde o topo da
cabeça e pinga pelos seus olhos. existe essa necessidade
insensata de aceitar algo novo que ainda não se
entende.
você bebe o meio copo, esperando que a língua leve
misericórdia para a mente; o que não acontece.
você coloca o copo, o copo vazio, na janela,
olhando os telhados quentes e coloridos das vilas
enquanto as tropas embriagadas de algum exército entram:
garotos cambaleando rumo à idade adulta fazendo estardalhaço
no vagão, cantando desafinados, quase amedrontados, ainda muito próximos
dos braços da mãe mas alto, você sabe, talvez alguns deles
agora corajosos com a bebida.
são treinados para obedecer, matar e morrer.
alguns esbarram na porta da cabine enquanto
passam
ansiando e sonhando com mulheres e com a vitória.
(continua)
Escrito por ademir assunção às 13h13
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levanto, fico na porta da cabine. eles olham para dentro,
espiam, alguns batem seus punhos contra o vidro; há
energia quando eles gritam e cantam, há energia
que precisa ser usada.
aceno, pisco, ou fico impassível a cada rosto que
passa, dependendo do seu humor ou do meu, dependendo de
que blefe ou que força ou que determinação ou
resistência ou compreensão são necessários.
continuam chegando: deve ter uma merda de um meio exército.
ei, garotos, nasci aqui como vocês. vêem?
sou alemão. reparem no formato do crânio: maxilar de buldogue; os
torpes olhos amedrontados. nasci em Andernach, no Reno.
tenho um tio lá com 93 anos.
estou assustado e não estou assustado; estou pronto para
eles e é bom estar pronto, seja lá o que está por vir eu
vou arrancar o saco de alguém, alguém vai perder
uma retina ou uma orelha, pelo menos, antes que partam minha cabeça e mergulhem pretzels no meu cérebro...
(continua)
Escrito por ademir assunção às 13h11
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então eles se foram, o último filho da mãe, rostos brancos
como comprimidos de aspirina achatados e talvez agora eu seja capaz
de ouvir a Quinta Sinfonia de Sibelius novamente.
tiro meus sapatos e escorrego para o longo e estreiro
banco que usamos como cama.
ela se esticou confortavelmente enquanto eu confrontava
aquele batalhão e me deito ao lado dela,
coloco meu braço em volta da sua cintura para evitar de rolar para
o chão enquanto dormimos, enquanto ela dorme, enquanto eu tento
dormir.
é uma boa garota. de manhã quando a luz vem
através da grossa e suja janela do trem, iluminando o
copo colorido, ela irá
se levantar, ir ao banheiro no nosso pequeno compartimento,
então voltar e me achar parecendo deprimente estúpido mudo
derrotado, sonolento e insone, sorrindo sombriamente.
ela vai tirar o mapa e me falar sobre os castelos
e vinhedos que virão, de paisagens vívidas e
milagres, e ficarei contente por sua excitação mas
o mundo e sua história e seus caminhos me deixarão confuso
como sempre e desejarei deixar aquele trem e
deixar esse lugar e desejarei urgentemente ir para casa, onde quer que
isso seja.
mas agora as tropas se foram e a última bebida se foi
e a noite se foi
e eu espero
sem sonhos e insatisfeito
como quase todas as outras pessoas.
Charles Bukowski
Tradução de Fabio Soares e Gerciana Espíndola
Mais informações: www.spectroeditora.com.br
Escrito por ademir assunção às 13h07
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O HORROR, O HORROR
Impressionante o horário eleitoral de Geraldo Alckmin ontem na TV. O tucano (trocando ovos no ninho das águias do PFL) mostrou com orgulho as mais de não sei quantas penitenciárias construídas em todo o estado durante seu governo. Com mais orgulho ainda (e mostrando até gráficos) demonstrou que a “população carcerária” triplicou durante seu governo. Com mais orgulho ainda (quase estourando o peito) abriu as portas dessas penitenciárias ao público (vazias, é claro) para mostrar que os presos ficam em celas individuais (rá rá rá), isolados de todos e sem direito a visitas íntimas. Algum assessor deveria jogar urgentemente na mão de Alckmin um exemplar de Cão come Cão, de Edward Bunker, o fora-da-lei americano que passou 30 anos em San Quentin e se tornou escritor (dos bons, inclusive). Bunker mostra com estilo seco como as “caixas-fortes” formam psicopatas altamente qualificados. Não é a toa que o PCC aterrorizou São Paulo de dentro das próprias penitenciárias. De dentro. O programa de Alckmin, mostrando ainda tropas de elite treinadas pela SWAT, parecia um manifesto fascista. Aliás, é só colocar um bigodinho no Alckmin que a máscara de bom menino cai, mostrando no lugar uma mórbida semelhança com grandes líderes nazifascistas. O discurso ele já tem. Depois de assistir o programa não me saía da cabeça a clássica cena de Marlon Brando na contraluz (Apocalipse Now) balbuciando: o horror, o horror.
Escrito por ademir assunção às 13h23
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FESTA
está claro amor amor não se compra em padaria
confete oba-oba elogios e só elogios e só elogios e só risos falsários isso sim é vida porcaria
está claro aqui e aí? cadê a festa? eu quero festa
se for preciso pancadaria
*****
eu vou vendo a vida en vol vendo a vida que não vendo
*****
SATORI
Sentado, distraído, na pedra ao lado da cachoeira — eu sou um buda de cabelos nublados e dedos de borracha.
A água fria franze a pele das costas. A samambaia sorri com suas folhas crispadas pelo vento.
Nada fora de lugar. Nenhum caos mental.
Pelado, pêlos eriçados — secando ao sol sou apenas mais uma espécie de vida entre muitas — viajando pelo tempo — que nunca existiu

Três poemas do livro LSD Nô (1994).
Escrito por ademir assunção às 12h19
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DE MOLHO
Repouso e pé pra cima. Foi o que o médico me recomendou. Por causa da fratura no tornozelo. Era pra ter feito isso desde sábado retrasado. Não deu. Agora, não vai ter jeito. Meu pé esquerdo continua inchado. Uma batata. Fiquei impressionado com os hematomas. Era pra ter substituído a tala por gesso no sábado passado. O médico preferiu colocar outra tala e me disse para ficar pelo menos dez dias de molho. Um saco. Vou aproveitar pra reouvir os dois primeiros discos de Tom Waits (Closing Time e The Heart of Saturday Night) e ler o segundo volume das obras completas de Roberto Piva (Mala na mão e asas pretas) e, finalmente, o inédito de Marcio Scheel (Arqueologia da Solidão). Se der, mando mais notícias nessa espelunca.


Em Closing Time e The Heart of Saturday Night, a voz de Tom Waits ainda não era tão suja quanto nos discos mais recentes. Baladas noturnas, belíssimas, com predominância de piano e trumpete. Quem nunca ouviu esses primeiros discos de Tom Waits ainda não ouviu a música celestial dos anjos das sarjetas.
Eu e Dani almoçamos com Piva no sábado passado. Cantina do Marinheiro, um restaurante muito bacana no começo da radial leste. Piva me deu o segundo volume das suas obras completas, que acabou de sair. Editora Globo. Imperdível.
Escrito por ademir assunção às 13h44
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MAIS POESIA DE BUKOWSKI

Acabei de receber pelo correio Vida Desalmada, a terceira coletânea de poemas de Charles Bukowski traduzida por Fabio Soares e Gerciana Espíndola e publicada pelo Spectro Editora, de Florianópolis. As outras duas: Hino da Tormenta (2003) e Tempo de Vôo para Lugar Algum (2004). Com esses livros, a poesia do velho Buk vai se tornando mais conhecida no Brasil — ele que escreveu muito mais poesia do que prosa. Há também publicados por aqui Essa loucura roubada que não desejo a ninguém a não ser a mim mesmo, amém (tradução de Fernando Koproski, Editora Sete Letras, 2005) e Os 25 melhores poemas de Charles Bukowski (tradução de Jorge Wanderlei, Editora Bertrand, 2003). Pra variar, são livros difíceis de encontrar nas livrarias. Quem quiser os da Spectro, pode pedir pelo site: www.spectroeditora.com.br
Um poema de Vida Desalmada:
ELE TAMBÉM É CONSUMISTA
O Estrangulador já assassinou e molestou sexualmente onze jovens mulheres nos arredores de Los Angeles e Hollywood.
faltam agora 5 dias para o natal para ele assim como para o resto de nós.
tem uma Força Tarefa Estrangulador com 65 homens trabalhando noite e dia.
a maioria das garotas era prostitutas.
em todo lugar que você vai as pessoas falam sobre O Estrangulador.
elas falam sobre ele nas lanchonetes Sizzler no McDonald’s nos cinemas do Pussycat Theather no observatório do parque Griffith e até mesmo no restaurante Howard Johnson da esquina da Hollywood com a Vine elas falam sobre ele.
O Estrangulador está a 5 dias do natal e agora ele faz compras na Zody’s como todos nós, mas com 2 cartões de crédito roubados.
de acordo com a polícia ele se veste de forma simples tem olhos castanhos caminha mancando mora com a mãe e tem um dente de ouro na frente.
fora isso ele não é diferente de ninguém mais exceto por uma coisa: ele pode estar usando tênis marrons gastos com cardarços pretos.
Feliz Ano Novo.
Escrito por ademir assunção às 23h02
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