Há tempos venho planejando uma saída estratégica pela esquerda, como o Leão da Montanha. Chegou a hora. Tô saindo fora. Dois meses longe de tudo. Tenho um encontro marcado comigo mesmo.
Uma casinha, no alto de um morro, com uma bela vista do Atlântico. Sozinho. Sem Internet nem telefone. Se pudesse, levava minha cachorra. E comprava um trabuco.
Deixo um livro pronto (aos amigos que estão dando a maior força para a publicação, meu muito obrigado). Vou terminar outro. E, talvez, mais outro.
Estou levando um bom estoque de Stones, Macalé, Jeff Beck, Bob Schneider, Tim Maia, Jeff Buckley, Itamar Assumpção, Keith Jarrett, Thelonius Monk, La Carne, Dante, Henry Miller, Homero, Will Eisner, Garth Ennis, Mircea Eliade, Ginsberg, Piva, Jerusa Pires Ferreira, Snyder, Rothemberg, Gurevitch.
Não sei se vou reabrir essa espelunca. Talvez eu volte daqui a dois meses nesse mesmo endereço. Ou em outro. Talvez não volte.
Vou sem bolsa nenhuma (por conta e risco próprios), mas com um quase-slogan do velho Pound (não o fascista, mas o poeta e agitador): Por que se retirar? Para voltar quando estiver mais forte.
Em breve saem dois números seguidos da Coyote com gente da pesada: Marcatti, Andrei Codrescu, Alejandra Pizarnik, Boris Kossoy (Kossoy, não Casoy), Carlos Carah, Roberto Bolaño e alguns mais. Rodrigo (Garcia Lopes) e (Marcos) Losnak darão notícias.
Continuo acreditando na força de rebelião da poesia.
Contra o quê mesmo? Contra tudo e contra todos que nos querem nocauteados no canto do ringue.
Contra o garçom de costeletas e o Sistema de Babilônia.
Não é qualquer um que tem o prazer de comemorar seu aniversário com um show ao vivo desses caras. (Parabéns, Fabi). Rock’n roll de verdade. Quem quiser ouvir algo, confira no blogue do meu camarada Pierre.
FUZUÊ NA MALOCA
Eu vou falar uns poemas. Mas tem muito mais. Sintonize o canal
POESIA QUE DÓI NOS OSSOS
Uma dose de uísque antes, outra depois, pra suportar a porrada.
RODRIGO IN CONCERT
Cruz e Souza não é só Broquéis. O melhor dele aqui: um negão assinalado.
Abro a página do UOL hoje e vejo as duas notícias “bombásticas”: 1) Termina a relação de Lázaro Ramos e Taís Araújo; 2) Gyselle (do Big Brother Brasil) diz que se sentiu isolada pelo grupo da casa.
E eu com isso?
Pra mim, uma das notícias mais importantes do dia é: Juvenal Pereira abre exposição no Grazie a Dio.
E é pra lá que eu vou hoje à noite.
Juvenal Pereira é um grande fotógrafo. Já tive o prazer de trabalhar com ele em altas reportagens. As duas mais memoráveis foram para a revista Marie Claire: 5 dias subindo o rio Amazonas (de Belém a Manaus) num gaiolão e 10 dias no Mosteiro Zen Morro da Vargem.
Ele tem o espírito dos grandes fotojornalistas.
É daqueles que não tem medo de apontar sua lente para quem quer que seja.
A sabedoria de uma época ameaçada pelo próprio avanço veste-se de desprezo em Big Sciense. Num vocal manso, desesperançado, ela dirige-se ao Grande Sábio:
"Ei, meu velho, você tem sofrido por aqui? E ele disse: o mundo se arruinou com a chegada de cada shopping/ Vá direto. Passe. Com alguém. Vá por essa rua/ E se mande. Deve haver outros lugares na Terra/ Continue indo a cada lugar/ Imaginando, construções. Drivings/ Bancos/ Nós podemos esquecer. Eu digo: este deve ser o lugar/ Venha para as grandes cidades/ Venha e se dane/ Grandíssima sabedoria/ E todos dizem: Aleluia!/ Cada homem, cada homem por si mesmo."
A lâmina fria da solidão é mais desoladora se vista do alto de "Kokoku", do LP Mr. Heartbreak. Ali está estampada a épica da destruição total, o apocalipse deflagrado pelas bestas das ogivas nucleares. De um buraco constelar, evocado com belíssimos ritmos orientais, soltos no éter, a Terra é vista como um colossal planeta assombrado, habitado por estranhos animais da idade do gelo, sacudindo, fantasmagórico. Nada resta. Apenas uma estrela apagada, tão distante da descrição transmitida via satélite por Yuri Gagarin, a bordo da aeronave Vostok 1.
"E ainda podemos fazer tudo errado. E não seria a primeira vez" — canta Laurie, com melancolia.
Rimbaud uivaria de assombro com a cética vidência musical de Laurie Anderson. Armada com um poderoso arsenal eletrônico, essa bruxa performática de Chicago ultrapassa as fronteiras que separam o universo do rock’n roll, das pesquisas minimalistas de mestres como Steve Reich. Sem lançar mão de guitarras furiosas ou de vocais heróicos. Seus brasões são outros: farfisa, obxa, casiotones, harmonizadores, violinos distorcidos, fitas magnéticas, tudo refiltrado em bitz eletrônicos e controlado por sucessivas repetições de acordes mínimos.
Como um filme que repete incessantemente uma mesma imagem, talvez, de um andróide em fuga, perfurado por closes, panorâmicas, planos e contraplanos. É um roteiro nada amistoso: ninguém vai ouvir os estalidos de sangue em meio aos fotogramas. Apenas um eletrohumano a menos, se a pistola o alvejar em cheio. Um desespero a menos.
Luis Nassif continua expondo as entranhas do jornalismo mais manipulador do Brasil – a revista Veja. No artigo “Os mais vendidos” ele mostra podridões de uma parte do grand monde literário, envolvendo editores, jornalistas e escritores.
É tudo verdade? I don’t know. No mínimo, as “revelações” merecem ser conhecidas por todos. Os detalhes são impressionantes.
Na reportagem de Nassif, impressiona a soberba de um dos poderosos da Veja, Mário Sabino. Eis o trecho de um email enviado a Reinaldo Azevedo, seu subalterno, em que enaltece as “qualidades” de seus próprios livros:
Reinaldo, caro,
Com o risco de parecer cabotino, o fato é que sou um autor bem-sucedido. Tenho dois livros publicados, o romance O Dia Em Que Matei Meu Pai, de 2004, e um de contos, O Antinarciso, de 2005. Antes de lançar o romance, mostrei-o a Raduan Nassar, que deu duas sugestões – acatadas – e me fez elogios. Disse que eu era um narrador “brilhante”, adjetivo do qual, vindo de quem veio, muito me orgulho. Poucas pessoas têm conhecimento disso. Só o revelo agora agora por causa dos insultos que ando recebendo. O livro vendeu, no Brasil, cerca de 4.500 exemplares, uma marca, como você sabe, acima da média nacional. Não precisei mendigar críticas positivas, ao contrário do que espalham os inimigos de VEJA. Ele foi elogiado na Folha, no Estado, no Globo, na Bravo! e outras publicações especializadas, como o jornal Rascunho, de Curitiba. Até a revista Época, concorrente de VEJA, brindou-me com uma resenha elogiosa, escrita por Luís Antonio Giron”.
A reportagem narra as “técnicas” utilizadas para transformar Sabino em escritor “bem-sucedido”. E mostra que não deram tão certo assim.
Há revelações inclusive sobre a conduta de Jerônimo Teixeira, aquele que tentou detonar o Movimento Literatura Urgente (lembram?) - certamente a mando dos seus donos.
Atenção senhores passageiros procedentes do ponto eqüidistante entre Tóquio e Nova York, com destino ao século 22. Por gentileza, queiram ocupar suas cápsulas de vácuo e tenham todos uma boa viagem. A nave será pilotada pela multiperformer Laurie Anderson. Não há motivos para pânico se no percurso esbarrarem em tempestades gasosas de Obxa. Todos os terminais estão controlados por programas de acordes minimais e são capazes de injetar em seus ouvidos overdoses de música das esferas pós-industriais. Se em alguns trechos sentirem a impressão de ouvir a voz de Deus, arranhada por deformações sintetizadas, não se assustem. Pode ser mera coincidência. Ou obra de seu próprio cérebro, abalado pelo tapete aveludado dos abismos negros.
O monge do mosteiro de Kokoku, Andy Warhol, profetizou que no futuro todos os habitantes do planeta terão acesso garantido ao sucesso durante quinze minutos. A violinista, tecladista, cantora, poeta, dançarina, fotógrafa, pintora e performer Laurie Anderson, segundo reza uma lenda de Los Angeles, veio do ano 2020 para completar a profecia: além da fama fugaz, todos terão direito de conversar durante horas com a secretária eletrônica do Superman, ser seduzido pela Serpente do Paraíso, endoidecer com os ensinamentos de uma Grande Ciência e ter visões de um planeta (outrora azul) assombrado, girando sem governo pela Via Láctea.
Duas grandes músicas de Edvaldo Santana, sob direção do poeta Arthur Gomes. E eu olho a menina preta de roupa azul e penso: que maluca despreocupação existe naqueles que não tem quase nada?
Paulo Stocker, um dos grandes desenhistas brasileiros da atualidade, agora também está publicando tiras em seu blogue (link aqui). Não sei como nenhum grande jornal ainda não descobriu o talento desse cara.