QUE LASTRO CULTURAL A VIRADA DEIXA? Nenhum. Na minha torta opinião, que não será ouvida pelos caciques, seria muito melhor investir em arte e cultura para FORMAR gente acordada de verdade. E não torrar uma grana grossa para iludir uma massa sem nome, sem individualidade, que segue ruminando em direção ao matadouro, recebendo sempre mais do mesmo.
A Virada teve apresentações de ótimos artistas? Sim. Mas e daí? Estão sendo compreendidos? Ou só participando de um festival de sonambulismo? Ontem fui ver o show da ótima The Central Scrutinizer. Com Bob Martin, da lendária banda de Frank Zappa, The Mothers of Invention. Conheço muito bem o som e é de foder de bom. Mas não se ouvia uma nota da guitarra de Rainer Tankred Pappon. Uma nota sequer. Uma incompetência total de alguém da técnica. Não posso generalizar. Mas isso aconteceu no show que fui assistir. E quando estava saindo, irritado, depois de uns 40 minutos sem ouvir uma única nota da guitarra, dei de cara com um arrastão. Por sorte, eu, minha namorada e um amigo saímos incólumes.
Volto a me perguntar: que lastro cultural a Virada deixa? Nenhum. Acho que seria muito melhor ter uma programação descentralizada, nos bairros, durante todo o ano. E não em um dia apenas. Podia ter um bom festival na Pompéia em janeiro, em Itaquera em fevereiro, no Campo Limpo em março, na Vila Madalena em abril e assim por diante. Muito melhor.
Na minha torta opinião, a Virada não é política cultural. É apenas um mega-evento, importado da França, por um capricho de José Serra quando era prefeito. Se o capricho de Serra fosse uma boa idéia, tudo bem. Nada contra. Na minha torta opinião, não é. Na minha torta opinião, políticas culturais de verdade devem ser um trabalho continuado, que FORME pessoas capazes de compreender, assimilar e se apropriar da cultura humana, venha de onde vier. Ano passado eu fiz um show na Virada Cultural. Me apresentei para uma boa platéia, foi bacana. Ganhei meu cachezinho. Mas e daí?
Um bom projeto, talvez um exemplo, foi desenvolvido pela Funarte, na administração passada. Chamava-se Interações Estéticas. Havia de tudo: shows de rock, blues, maracatu, expressões populares, teatro, grafites, rádios livres, literatura, poesia. E havia muitas conversas, oficinas, discussões. Isso sim FORMA cidadãos. E não "consumidores" culturais.
Qual é a política cultural (ou as políticas culturais) da maior cidade da América do Sul? Quem souber, me diga.
Espero que a nova administração da cidade de SP tenha coragem e lucidez para criar uma.
A três dias de distância, caminhando em direção ao sul, encontra-se Anastácia, cidade banhada por canais concêntricos e sobrevoada por pipas. Eu deveria enumerar as mercadorias que aqui se compram a preços vantajosos: ágata ônix crisópraso e outras variedades de calcedônia; deveria louvar a carne do faisão dourado que aqui se cozinha na lenha seca da cerejeira e se salpica com muito orégano; falar das mulheres que vi tomar banho no tanque de um jardim e que às vezes convidam – diz-se – o viajante a despir-se com elas e persegui-las dentro da água. Mas com essas notícias não falaria da verdadeira essência da cidade: porque, enquanto a descrição de Anastácia desperta uma série de desejos que deverão ser reprimidos, quem se encontra uma manhã no centro de Anastácia será circundado por desejos que se despertam simultaneamente. A cidade aparece como um todo no qual nenhum desejo é desperdiçado e do qual você faz parte, e, uma vez que aqui se goza tudo o que não se goza em outros lugares, não resta nada além de residir nesse desejo e se satisfazer. Anastácia, cidade enganosa, tem um poder, que às vezes se diz maligno e outras vezes benigno: se você trabalha oito horas por dia como minerador de ágatas ônix crisóprasos, a fadiga que dá forma aos seus desejos toma dos desejos a sua forma, e você acha que está se divertindo em Anastácia quando não passa de seu escravo.
Sábado que vem (18 de maio) será lançado meu primeiro livro para crianças: O Caio e o Cuio. Pelo selo Aaatchim! Com ilustrações de Sebastião Nuvens. Também serão lançados mais dois livros pelo mesmo selo: Conversinhas, de Israel Jelin e O Alfabeto, os Nomes e o Tempo, de Mônica de Ávila Todaro. Na livraria Martins Fontes (av. Paulista, 509. Das 15h30 às 18h30.
MAS AFINAL, QUE PORRA ESTE ÁLVARO PEREIRA JÚNIOR ESTÁ DIZENDO?
Tenho cá meus pés atrás com o pessoal dos movimentos Fora do Eixo e Existe Amor em SP. Acho que ainda há aberrações, que devem ser criticadas, em muitas políticas públicas para a arte e a cultura. Mas Álvaro Pereira Júnior, colunista da Folha de S. Paulo, fala merda pra caralho:
"Está se criando toda uma geração de público dependente de cultura subsidiada, em especial na música. Uma audiência acostumada a festivais gratuitos bancados por secretarias de Cultura, e shows a preços irrisórios nos Sescs" - escreve ele em sua coluna semanal na Folha de S. Paulo.
Cultura subsidiada?
Afinal, o que isso significa?
Para tentar esclarecer o que ele não deixa claro, faria cinco simples perguntinhas:
1)Quer dizer então que shows e festivais devem ter ingressos caros? Caríssimos, talvez, como os do Credicard Hall, Via Funchal ou Festival Lollapalooza (muitos dos quais, aliás, recebem ou já receberam subsídios públicos via Lei Rouanet)?
2)Se um artista, um escritor, digamos, bate na porta de uma, duas, três grandes editoras e nenhuma delas se interessa em publicá-lo, então quer dizer que ele é mesmo péssimo e não deve existir?
3)Arte e cultura (música, literatura, cinema, etc) são bens privados e devem ser tratados como tal? Quer dizer: quem não tem dinheiro para “comprá-los” deve enfiar o rabo no meio das pernas e se conformar com “Big Brother Brasil”?
4)A Rede Globo, emissora na qual Álvaro trabalha, recebe quanto de dinheiro público, seja em subsídios diretos ou em anúncios de empresas estatais?
5)Digamos que eu grave um cd de altíssima qualidade artística (com dinheiro do próprio bolso) e queira divulgá-lo num programa da Rede Globo (tipo Altas Horas ou Domingão do Faustão). Quanto custaria?
Álvaro faz uma maçaroca de idéias que pode até convencer alguns incautos.
Mas, para mim, esse cara ou é
( ) tremendamente desinformado,
( ) extremamente cínico,
ou
( ) declaradamente mal intencionado.
Quem não leu o artigo dele na Folha de S. Paulo, eis o link:
Aquilo ali que você está vendo quase no canto superior direito da imagem, recostado no braço do sofá, é um pé. Um pé de uma espécie conhecida como “ser humano”.
É o pé, provavelmente o direito, deste ser humano, que acorda com o barulho de máquinas trabalhando, por volta das 9 horas da manhã.
Deste ser humano que mora neste sofá jogado por algum morador vizinho ao terreno abandonado coberto por entulhos e lixo na vila Nova União, zona leste de São Paulo. A Vila Nova União fica a cerca de 35 km do centro de São Paulo, a cidade mais rica do Brasil. Este ser humano vive em um país capitalista.
Segundo o “escritor” Leandro Narloch, este bem nutrido rapaz que você vê na foto, autor do Guia Politicamente Incorreto do Brasil e do Guia Politicamente Incorreto da América Latina, o “capitalismo é o melhor regime já inventado na história da humanidade”.
Leandro Narloch é cria da revista Veja. O nome do ser humano dono do pé da primeira foto eu não sei. Ele não quis falar. Saiu silenciosamente e sumiu numa quebrada da Vila Nova União, ontem pela manhã.
De uma carta jogada em cima da mesa sai uma linha que corre pela tábua de pinho e desce por uma perna. Basta olhar bem para descobrir que a linha continua pelo assoalho, sobe pela parede, entra numa lâmina que reproduz um quadro de Boucher, desenha as costas de uma mulher reclinada num divã e afinal foge do quarto pelo teto e desce pelo fio do pára-raios até a rua. Ali é difícil segui-la por causa do trânsito, mas prestando atenção a veremos subir pela roda do ônibus estacionado na esquina e que vai até o porto. Lá ela desce pela meia de náilon da passageira mais loura, entra no território hostil das alfândegas, sobe e rasteja e ziguezagueia até o cais principal, e aí (mas é difícil enxergá-la, só os ratos a seguem para subir a bordo) alcança o navio de turbinas sonoras, corre pelas tábuas do convés de primeira classe, passa com dificuldade a escotilha maior, e numa cabine onde um homem triste bebe conhaque e ouve o apito da partida, sobe pela costura da calça, pelo jaleco, desliza até o cotovelo, e com um derradeiro esforço se insere na palma da mão direita, que nesse instante começa a fechar-se sobre a culatra de um revólver.
Las Blacanblus: um quarteto de blues só de mulheres: Viviana Scaliza, Mona Fraiman, Cristina Dall e Deborah Dixon (nos shows e discos chamavam outros músicos). O grupo surgiu em 1992 e acabou em 2006 (uma pena!). Mas as blacanbluzeiras deixaram quatro discos gravados: Cuatro mujeres y un maldito piano (1994), Rituales (1997), Especial en vivo (1998) e Suena en mí (2005). A música do vídeo é do primeiro disco.
Nesta quinta-feira (25/04) tem uma leitura de poemas em homenagem a Rodrigo de Souza Leão. Vários poetas vão ler poemas dele: Carlos Roberto Bueno, Celso de Alencar, Charles Gentil, Frederico Barbosa, Ingrid Morandian, Lucila de Jesus, Luiz Roberto Guedes, Reynaldo Damázio e eu. Claudio Daniel fará uma breve palestra sobre a obra de Rodrigo (quase toda póstuma). No Centro Cultural São Paulo, a partir das 20h30.
Tenho grande admiração pela poesia e prosa do Rodrigo. O conheci por email, no início dos anos 2000. Ele havia lido meu livro A Máquina Peluda e ficara fascinado. Me escreveu, fez uma entrevista comigo e a partir daí sempre trocávamos mensagens via internet. Ele sempre mandava poemas. Poemas cortantes, atormentados, criativos, viscerais. Apresentei um punhado deles ao Rodrigo Garcia Lopes e ao Marcos Losnak. Ambos gostaram muito. Resolvemos publicá-los na revista Coyote.
Uma noite, Rodrigo me ligou. Foi a única vez que nos falamos. Me pareceu uma pessoa muito gentil, educada e intensa. Falou das suas internações em clínicas psiquiátricas. Falamos de poesia, rimos um bocado e eu fiquei bastante impressionado com a personalidade dele.
Alguns anos depois saiu a incrível ficção “todos os cachorros são azuis”, pela editora 7 Letras. Me tornei mais fã. Um dos melhores livros que li naquele ano.
Infelizmente, Rodrigo faleceu em 2 de julho de 2009, aos 44 anos (mesma idade com que Leminski se mandou). Mas deixou vários livros, que estão sendo publicados pela editora Record, sob os cuidados do também poeta Ramon Mello. Deixou também centenas de poemas.
O clipe de “Bang Bang no Sábado à Noite”, poema de minha autoria, com música de Caio Góes, já está na rede. Direção do meu amigo Robson Timóteo. Foi produzido com orçamento zero. Sem patrocínio nenhum. Apenas com várias idéias na cabeça, nenhum puto no bolso e muita vontade dos que se envolveram.
A gravação (áudio) ainda é uma pré-produção da versão definitiva, que estará no meu próximo cd. Começaremos a gravá-lo no último final de semana de abril. Por enquanto, é o que temos. Divirtam-se. E procurem se manter fora da alça de mira.
Meu amigo Robson Timóteo dirigiu um videoclip de uma faixa do meu novo cd com a banda Fracasso da Raça.
As gravações do cd começam agora em abril.
Mas a faixa Bang Bang no Sábado a Noite já está pré-produzida.
O lançamento do clip será segunda-feira (1 de abril) às 21h30, com um bate-papo ao vivo com a banda, via internet, diretamente do Pró-Estudio Sala 2. Quem quiser assistir, só entrar no endereço: www.postv.org