| ESPELUNCA - blogue de ademir assunção |
NÃO NÃO NÃO NÃO NÃO Eu me conheço. Quando eu começo, não sei parar. Eu perco coisas pelo caminho. Eu perco compromissos importantes no dia seguinte. Eu falo besteiras para pessoas que eu considero. Eu arrumo confusões desnecessárias. Eu passo muito perto do perigo. Eu já vi esse filme muitas vezes. Cada um é cada um. Eu não posso chegar tão perto do fogo desse jeito outra vez. Eu preciso muito de calmaria. Muito mesmo. Eu não deveria escrever essas coisas aqui, mas eu escrevo. É apenas um jeito de me salvar. É apenas um jeito de pedir: senhores deuses me protejam. Que ninguém se assuste. Nem todo dia a vida é em tecnicolor. Só isso. Cuidem-se bem, perigos há por toda a parte, como cantava Guilherme Arantes. Aliás, Marião, essa é uma boa pra incluir no repertório, não acha? No fundo continuamos sendo os velhos garotos selvagens de sempre. Quem sabe esteja na hora de assumirmos: só somos velhinhos indomáveis. Mas até Paul Newman tem seu tempo de trégua. Deu pra mim. Vou pra Porto Alegre, tchau.
Escrito por ademir assunção às 16h19
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UM GRANDE POETA 
Rodrigo de Souza Leão escreveu um dos melhores livros que li o ano passado: Todos os Cachorros São Azuis. Um pequeno clássico geracional. Como PanAmérica (José Agrippino de Paula), Tanto Faz (Reinaldo Moraes) e Morangos Mofados (Caio Fernando Abreu). E continuava escrevendo alucinadamente. Prosa e poesia. Não o conheci pessoalmente, mas era como se fosse meu amigo íntimo. Conversamos uma única vez por telefone. Ele me ligou do nada e ficamos mais de uma hora conversando. Trocávamos muitos emails. Me sentia próximo dele. Rodrigo era uma espécie de Ken Kesey da poesia brasileira. Um estranho no ninho da poesia. Agora pouco recebo um email do meu amigo Cássio Amaral dizendo que ele se foi. Logo depois, meu amigo Sérgio Mello confirma. Parada cardio-respiratória. Estou pasmo. Sinceramente, espero que tudo não passe de um engano. Ele mantinha um blogue muito legal. O lowcura. Esse foi o último texto que escreveu, publicado no dia 25 de junho: “A mente esquizofrênica não funciona bem e boicota, sem os remédios, o tempo todo. Com remédios ficamos bem. Leves e tranqüilos para o mundo, que é muito bom. Fora as pessoas que não valem à pena, estas manter distância torna-se necessário. Positive Vibrations.” No mesmo dia, 2h20 antes, ele postou esse poema: TUDO É PEQUENO Tudo é pequeno A fama A lama O lince hipnotizando a iguana O que é grande É a arte Há vida em Marte Caraco, irmãozinho: você vai fazer falta. Segue em paz teu caminho. Positive vibrations.

Escrito por ademir assunção às 16h34
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O TEMPO NÃO PÁRA 
“Não devemos desperdiçar a graça dos pequenos momentos de liberdade de que podemos desfrutar: uma mesa compartilhada com pessoas que amamos, umas criaturas que ampararemos, uma caminhada entre as árvores, a gratidão de um abraço. Nós nos salvaremos pelos afetos. O mundo nada pode contra um homem que canta na miséria.” Ernesto Sábato, na Coyote 19, que já está chegando nas livrarias e no Sebo do Bac: www.sebodobac.com
Escrito por ademir assunção às 13h49
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COYOTE NOVA NA PRAÇA
Foto da capa: Rogério Ivano Chegamos ao número 19. Com uma entrevista inédita de João Cabral de Melo Neto, feita pelo poeta gaúcho Thomaz Albarnoz Neves. Cabral diz coisas surpreendentes. Tipo isso: “Quando estava morando em Barcelona, tinha acabado de escrever e publicar a ‘Psicologia da Composição’ e estava certo de que não iria mais escrever poesia.” Tem mais: poemas da brasileira Annita Costa Malufe, da portuguesa Ana Luísa Amaral, do norte-americano George Oppen (traduzidos por Ruy Vasconcelos) e da espanhola (radicada no Paraguai) Montserrat Alvarez (traduzidos por Luiz Roberto Guedes); contos de Marcelo Maluf, Reni Adriano e Donald Barthelme (traduzido por Caetano Waldrigues Galindo), quadrinhos da dupla Teo Adorno e Luiz Brás e fotos do londrinense Rogério Ivano. Tem poemas meus também, do meu novo livro, ainda inédito. Quem estiver interessado, Coyote 19 já está chegando nas livrarias. Se não encontrar, vá direto ao Sebo do Bac que é tiro certeiro: www.sebodobac.com. E abaixo poema de Montserrat Alvarez (com sua dicção densa e atormentada), traduzido por Luiz Roberto Guedes: Garrafa ao mar do futuro Os grandes amantes que saúdam com as loucas gargalhadas de sua unção esquizofrênica as primeiras cruezas do inverno sua rotina cíclica, rigorosa e rude Os grandes amantes que aplaudem a chegada da noite com sua ultrajante barbárie clandestina com suas dolorosas alegrias cruéis, com seus gozosos loucos maravilhosos êxtases psicóticos Os grandes amantes que caminham apressados dando-se nervosamente as mãos suarentas fumando com frenesi e beijando-se e movendo as pernas olhando em frente sem nunca dizerem nada porque já sabem de tudo – como se estivesse dito Os grandes amantes que consomem cerveja e aguardenteque desperdiçam até o que não possuem que caminham a toda pressa cegamente perseguindo um sentido que não está em parte alguma que tentam comportar-se como pessoas normais mas não conseguem esconder de todo o vigoroso afã que os consome entrelaça seus corpos move suas pernas sem fim nem trégua porque perseguem algo que não se encontra em parte alguma
Escrito por ademir assunção às 12h08
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Os grandes amantes que vão ao dentista põem o lixo lá foradizem boa tarde pagam a luz o aluguel a água vivem passando aperto com seu incerto porvir terrenocolocam sua máscara social a cada dia preservam as aparências enfrentam e sorriem ante o ubíquo inimigo plural de mil olhos Que apenas conseguem fazer frente a tal destino terreno porque estão teimosa e avidamente ocupados em sua perseguição insone faminta de algo que não está em nenhuma parte Mas que contudo retiram o lixo dizem boa tarde pagam os honorários do dentista trabalhamperdem no trabalho horas preciosas de sua única vida horas que poderiam ser poemas horas que poderiam ser de amor horas enfim roubadas de sua busca feroz e decisiva os grandes amantes que retiram o lixo pagam a luz o aluguel a água Os grandes amantes que refreiam seu impulso de começar a correr mesmo que não saibam para onde vão e às vezes de madrugada acordam anelantes e se unem e se beijam mas não conseguem nunca acalmar-se porque perseguem algo que não está em parte alguma Que não está neles mesmos que em parte alguma estáque já não fala nunca que ninguém lhes esconde que não se torna visível que não mora em seu centro que já está esquecido que já deixou seu coração vago que a ninguém mais recorda nem conheceu jamais ao qual ninguém mais interessa Que um dia teve uma alma grande como o espaçoque falava com setenta vezes sete sonoras fauces setenta vezes sete gigantescas e fundas que eles ainda têm dentro de suas gargantas Algo do qual eles são os espectros sem sabê-lo as sombras projetadas a luta a agonia a última batalha que os faz bramir com suas vozes toscas negras grosseiras perigosas Que é sua fonte sua medula seu intempestivo núcleo o motorde sua vida e de sua força o feroz combustível de suas pernas potentes que perseguem a Morte o Absoluto a Última Verdade Definitiva a única coisa que poderá saciá-los isso que os agita e alimenta com sua enorme maldade com seu ódio cego que quer destruir com sua demente e também cega patética bondade alucinada que não fala por eles mas em nome de todos que em nome de todos se rebela e maldiz que deseja matar e morrer pelos outros por milhões por algo que já não se encontra em nenhuma parte Que ninguém lhe interessa afinal de contas que já não lembra de ninguém ainda que todo este amore todo este ódio pudessem ter sido tão importantes um dia quase vitais que coisa mais ridícula ainda que tantas palavras feitas de tanta vida feitas de tanta morte possam ter sido importantes um dia para todos os homens Os grandes amantes que tanto caminham os dromomaníacos delirantesque se entrelaçam e se unem na desolação de sua tristeza em seu impressionante vigor improdutivo em sua insólita formosura em seu desconcertante desamparo em seu exílio de um Olimpo desabitado e arruinado porque se sabem sozinhos sozinhos sozinhos Perseguem em suas cegas caminhadas e querem e não querem encontrar o grande trono vazio de sua divindade arcaica Ó Senhor da Noite, por que te manifestas como ausência Quem terá te assassinado Os grandes amantes escrevem escrevem e com tinta invisível e ferozes criptogramasinterpelam os que chegarão em tempos mais ditosos – Ó vós todos daqui deste mundo de mudez inerte desde este grande semsentido deste mundo tão feio desde algo tão vulgar como este mundo daqui deste mundo televisionado ao vivo e diretamente nós vos saudamos Muitas felicidades Porque o que hoje se diz a partir de dois solitários corações dementes saberá dizê-los em voz alta o amanhã desde muitos milhões desde todos
Escrito por ademir assunção às 12h05
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HOJE NO RIO 
SÁBADO EM SÃO PAULO

É o sexto encontro da série, que tem feito a cabeça de muita gente.
Escrito por ademir assunção às 11h25
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HOJE É DIA DE PORNOPOPÉIA Ezra Pound falava em melopéia, fanopéia e logopéia. Leminski acrescentou mais uma: a loucopéia. E agora Reinaldo Moraes amplia a festa com sua pornopopéia.
Lançamento hoje (dia 29), na Mercearia São Pedro (rua Rodésia, 34 – Vila Madalena), a partir das 20h.
Escrito por ademir assunção às 12h21
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PÉ NA ESTRADA 
Estou saindo pra Penápolis. Vou dar uma oficina de haikais lá. Perto de Mirandópolis, cidade em que morou Nenpuku Sato, um dos grandes haikaistas japoneses, que veio para o Brasil nas levas migratórias. Gosto desse assunto. Gosto de botar o pé na estrada. Boa oportunidade para falar de um ancestral easy rider, um on the road do século 17, que cruzava o Japão de ponta a ponta, a pé, só pra ver a neblina cobrindo o cume do Monte Fuji. Grande Bashô, o senhor Bananeira (“bashô”, em japonês, quer dizer “bananeira”).
Escrito por ademir assunção às 12h06
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TRÊS POEMAS de Reynaldo Damazio, do livro Horas Perplexas (2008) ÂNGELUS Anjos não voam mais asas emperradas, vagueiam da sarjeta ao manicômio esgrimam com fantasmas de néon armados de letras góticas pressentidos no coração aflito de crianças sem religião abrigam-se da chuva negra sob viadutos nos classificados da edição dominical nas caixas de papelão do shopping center na última fila do cinema pornô corpos de anjos alimentam ratos nos esgotos restos de anjos estão à venda na feira de antiguidades muitos usam prostitutas entediados com a corrupção de menores mas há os que lêem Dante com desdém os que indagam do futuro no fundo da xícara que do aparador mantém o equilíbrio do universo há os que negam sua humanidade e se tornam personagens de romances herméticos anjos tortos foram extintos não há pistas de anjos guerreiros senão nos quadrinhos como paródia de espartanos sensíveis anjos com aspecto infantil ganharam patente na indústria de massa somente um anjo, o mais belo, sorri em farrapos no banco da praça de tanta tolice MEMÓRIAS DA DECOMPOSIÇÃO A noite não deixa marcas em meu sonho; os passos se perdem na calçada e nada pode ser mais preciso, mais tortuoso, que o esquecimento do desejo, o fim da fagulha entrevista no olhar que me procurava (ao menos assim o imaginei) em dias de vento frio, em noites de sede e tédio, quando a violência das ruas gritava nos telejornais e fingíamos que havia um mundo quase perfeito, circunscrito entre bares, cinemas, cafés, móveis baratos de um apartamento alugado a preço de banana, no centro velho de uma metrópole que já não existe.
UNREALITY SHOW escutou o ruído da morte. não era incômodo ou persuasivo. um canto mudo, se possível. estridência silenciosa, se tanto. queria reter do ruído seu contorno preciso, exatidão de certa ausência pressentida. mas o corpo inerte da avó e a dor delicada que perfurava suas vísceras roubaram a atenção. ficou o sopro das janelas, o odor de flores. tudo muito real.
Escrito por ademir assunção às 10h43
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FESTA BRUTAL
Para arrecadar fundos para a montagem da peça Brutal, texto de Mário Bortolotto.
Escrito por ademir assunção às 14h50
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LOGO MAIS Não perca. Você não vai ter a chance de ver coisa parecida outra vez. 
Um poema de Antonio Thadeu Wojciechowski: ESSAS COISAS SÓ ACONTECEM COMIGO
Dia desses, andando no cu da madrugada, Tão bêbado, trôpego, triste e comovido, Que imaginei estar sofrendo na lombada Todas as dores deste mundo sem sentido.
O céu ía alto. Na rua, um asfalto de merda Ampliava os riscos de eu me esborrachar no chão, Mas, na hora, sem saber de nada disso, achei certa A decisão de ir em frente e, quer queira ou não,
Com bêbado não se discute, ainda mais quando Ele é você mesmo. Assim, nós, ou melhor, eu, Saí a procurar um bar aberto e, fumando, Já nem me lembrava do que me aborreceu.
O bairro Barreirinha é grande e escuro. Tateando, investigando, perscrutando, achei. No fundo do quintal, o barraco, sem muro, Era simples e aconchegante. Nem pensei.
Pedi logo duas, pra não ter que esperar Trazerem outra quando a primeira acabar. Sentado, bebendo e fumando, não vi a hora Passar. É engraçado ver isso tudo agora! . Eu, na maior deprê, sem ter para onde ir, Me julgando o borrabosta mor da cidade, Estava ali tranqüilo, tomando uma beer, Queimando um Marlboro em total felicidade.
Mas se uma tempestade não dura pra sempre; A paz também já nasce com o umbigo roxo. Na mesa ao lado, um beberrão, completamente Louco, ergue-se e me acerta, em cheio, um soco.
Doeu mais a ofensa que o direto, porém, Enfiei-lhe a mão na cara, sem perdão nenhum. O dono do bar entrou na briga, também, E o bafafá virou um borobodó...hummm!
Meu Deus! Todo mundo dando porrada, bem Pra caralho. Até um gaguinho, meio picego, Entra na dança, vem pra cima de mim sem A menor cerimônia e vai como um prego.
Deu dó, foi um tombo só. Dei-lhe uma rasteira, Coisa linda de ver! Horizontalizei No ar o filho da puta, que caiu, sem eira Nem beira, gritando “le-le-vi-vi-vi-tei!
Escrito por ademir assunção às 12h44
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CENSURA BRANCA OU PARANÓIA? Eu falo em censura branca aqui e muita gente deve me achar um pentelho paranóico. Quem está preocupado com isso? A época é de diversão. Vamu lá, rapaziada! Bom, eu tenho 25 anos de jornalismo (boa parte desse tempo no “exílio”). Nunca tive ilusões a respeito da grande (ou média) imprensa. Sempre soube dos acordos dos donos de jornais. Mas ainda peguei uma época em que havia uma nítida (e conflituosa) divisão entre redação (departamento editorial) e departamento comercial. Jornalistas (nem todos, claro) brigavam para fazer seu trabalho decentemente: informar. A rapaziada do departamento comercial (pressionada pelos donos dos jornais) tentava vender o máximo de anúncios possível. Fazia parte do jogo. Mas quando as negociações (e acordos por debaixo do pano) interferiam demais na liberdade editorial, o bicho pegava. Os conflitos eram constantes. Afinal, jornalismo sem credibilidade vale pra quê? Há alguns anos, parece, os donos de jornais se importavam um pouco mais com isso. Hoje, cada vez menos. Por isso quase ninguém acredita no que lê, ouve e vê na imprensa. E a rapaziada que está saindo das faculdades de jornalismo (a maioria, caça-níqueis altamente lucrativos) muitas vezes confunde jornalismo com glamour. Não estou generalizando, mas muitos e muitos recém-formados querem ser William Bonner ou Fátima Bernardes. Não fazem a menor idéia do que seja jornalismo. Não fazem a menor idéia dos riscos e do tesão de fazer bom jornalismo. Os riscos vão desde levar um balaço no meio da testa (ainda há muitos e muitos casos Brasil e mundo afora) até amargar o desemprego crônico. O tesão, bom, só quem tem tesão é que sabe. Mas, voltando a “censura branca”. Está rolando, sim. Cada vez mais. Censura branca, institucional. Não é um censura governamental, explícita. Não. O Big Brother é muito mais difuso. Confunde mais. Deixa na dúvida. O pior é que a chamada imprensa “alternativa” atual não ajuda. Fórum, Brasileiros, Revista do Brasil, Caros Amigos, embora cumpram um papel importante, estão muito longe de um jornalismo mais quente, ousado, questionador de verdade. Quando se trata de jornalismo cultural, então, quase que reproduzem a mesma linha editorial da grande imprensa. É uma cegueira absurda. Lamentável. Não quero puxar a sardinha para o meu lado (até porque essa sardinha não é nada “digestiva”) mas está na hora de botar algumas informações na roda. Quem acompanha essa espelunca sabe que há mais de um ano tenho um livro de entrevistas prontinho. E há mais de um ano e meio, um outro livro de grandes reportagens, artigos, resenhas e textos inclassificáveis. Os dois livros sintetizam 25 anos de jornalismo profissional. Quer dizer: são duas antologias do melhor que publiquei na imprensa (grande, média, pequena, sindical, alternativa) durante 25 anos. O livro de entrevistas, pelo menos, pensei que despertaria facilmente o interesse de grandes editoras. Afinal, é um time nada desprezível de entrevistados: Paulo Leminski, Raul Seixas, Roberto Piva, Haroldo e Augusto de Campos, Luiz Melodia, Grande Otelo, Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, Alice Ruiz, Márcia Denser, Hermeto Pascoal, Sebastião Nunes, Glauco Mattoso, Lenine, Arnaldo Antunes, Jorge Mautner, Mario Bortolotto, Chacal, Nelson de Oliveira, Claudio Daniel e por aí afora. Bom, algumas grandes editoras se interessaram. Uma delas, ligada a um grande império de comunicação, chegou a pedir para ser a primeira a ter o material. Isso se deve em muito ao interesse de um dos editores. Mas seu pedido não foi individual. Foi feito depois de conversa com a direção da editora. A diretora de outra, uma das maiores, ou a maior do Brasil (e, parece, da América Latina) fez elogios rasgados ao livro, disse que as entrevistas eram excelentes, que eu era um ótimo entrevistador e chegou a dizer que era uma honra ser entrevistada por mim (após uma entrevista que fiz com ela, para um instituto cultural de São Paulo). Estranhamente, as duas editoras desistiram do livro, após algum tempo. Fiquei matutando: mas como, se demonstraram tamanho interesse? Será que após lerem o teor de algumas entrevistas, deram pra trás? Mas será possível um negócio desses? Em pleno século 21? Pra entenderem o teor de algumas entrevistas, a que estou me referindo, alguns exemplos: “Se 95% da humanidade é conservadora e só 5% revolucionária, o mundo é dos medíocres. Eles fazem os best-sellers, os automóveis, os hipermercados, os programas de auditório e estão controlando o poder na terra inteira. Por isso a minha "provocaçam", em legítimo português arcaico: pra dizer que não gosto deles, que prefiro um assaltante a um banqueiro, um bêbado a um industrial e um pivete a um publicitário.” (Sebastião Nunes, entrevista publicada na revista Cult, agosto de 2.000). “Publicidade é babaquíssima. Você pega um Washington Olivetto, um Alex Periscinoto, um Roberto Duailibi, um Roberto Medina (donos de algumas das maiores agências de São Paulo e Rio de Janeiro), são caras extremamente babacas. Inteligentes, mas extremamente superficiais. São exemplos de babacões metidos a criadores e filhotes diletos do universo pasteurizado do consumo made in América.” (Sebastião Nunes, entrevista publicada no Jornal da Tarde, em 25 de fevereiro de 91). “Gosto de futebol. Sou um cara muito machista. Não me sinto à vontade com esses valores gays. Eu me solidarizo. Fiz parte de todo um movimento cultural de minorias que aconteceu justamente no final do período militar (...). Então, lógico, eu me solidarizo, tenho cumplicidade nisso. Mas não me identifico com o estereótipo homossexual. Na verdade, não sou um homossexual. Os dois maiores mitos do homossexualismo quais são? O sexo anal e o culto priápico levado ao exagero — o culto do pau grande. Não sou adepto de nenhuma dessas duas coisas. ” (...) “A pedolatria, por mais excêntrica que pareça socialmente, na verdade ela é muito mais inofensiva que a prática sexual comum de penetração. Posso estar lambendo uma sola de sapato, por exemplo, e na verdade não estou absorvendo mais sujeira do que você absorve respirando o ar poluído.” (...) “As pessoas costumam pensar que são coisas automáticas, que vou me esporrar todo, que vou ficar completamente fora de mim. Na verdade, tenho uma atividade mental, sou um punheteiro.” (Glauco Mattoso, entrevista publicada na revista Medusa, novembro de 1998). Há muitos outros exemplos de declarações desse tipo. Tenho preguiça, agora, de procurá-las. E eu comecei a pensar: será que é isso? Será possível? Não sei. Não sei o ponto a que está chegando o moralismo, o alinhamento ideológico ou o receio da perda de alguma vantagem econômica (esse o maior de todos). Não esqueçam a censura imposta recentemente à biografia de Roberto Carlos. Temendo um processo, a editora Planeta simplesmente retirou o livro das livrarias. O que é isso? Censura, óbvio. É como se a Penguim Books, temendo um processo da Igreja, retirasse o Ulisses, de James Joyce (que, aliás, foi alvo de censura na época) de circulação. É como se o réu já assumisse a culpa antes do julgamento. E a culpa, neste caso, é a ousadia de exercer o direito à liberdade de expressão, garantido na Constituição Federal da maioria dos países. Essas desconfianças sombrias se reforçam ainda mais quando fico sabendo que livros estão sendo retirados de bibliotecas escolares com o argumento de que “ferem e influenciam negativamente os jovens”, por tratarem de assuntos como violência, sexo e morte. Mais assustador saber que entre estes livros estão volumes de história, recolhidos por apresentarem gravuras com rituais indígenas de execução dos adversários. E também a história em quadrinhos Um Contrato com Deus, de ninguém menos que Will Eisner, sob a acusação de tratar de assunto inadequado como estupro, violência e sexo. Quem acha que é pura paranóia, pense um pouco nas palavras de Allen Ginsberg, em entrevista a Rodrigo Garcia Lopes, em 1991!!!!, publicada no livro Vozes e Visões (ed. Iluminuras). “Hoje há uma imposição da censura legal em todos os níveis, muito mais do que em qualquer outro período. (...) Não é só o ataque às artes, com o escândalo no Fundo Nacional para as Artes, que desde o ano passado passou a se recusar a financiar trabalhos de arte que fossem considerados ‘indecentes’. (...) A censura à liberdade de expressão nos EUA está mais forte do que nunca. (...) A desculpa é a de proteger os direitos dos menores de idade. Com isso, acabaram reduzindo uma população inteira a uma mentalidade infantil. (...) A mídia faz uma lavagem cerebral mesmo: as imagens dos mortos na guerra, do assassinato da população civil e da devastação em proporções apocalípticas no Golfo Pérsico não foram exibidas nos EUA. É provável que você consiga mais informações sobre o que se passa nos EUA em jornais europeus do que norte-americanos. (...) Isso tudo é um sinal de colapso, de uma cirrose mental, acho. Os jovens de hoje não sabem o que significa a velha liberdade, e isso é triste”. Ginsberg se refere aos EUA e ao contexto da Guerra do Golfo Pérsico (no começo dos anos 90). Terrível é saber que as coisas pioraram ainda mais de lá pra cá. E que os argumentos vão se tornando cada vez mais hipócritas. Quem estiver interessado no assunto, leia essa matéria: http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/ensino/conteudo.phtml?tl=1&id=896993&tit=Censura-a-livros-chega-ao-Parana E assista esse vídeo-reportagem, dica do meu brother Cabeça (valeu, mano): http://www.youtube.com/watch?v=UqEimwCupsQ http://www.youtube.com/watch?v=H_aV9-lo8Pw&NR=1 http://www.youtube.com/watch?v=mc3YR5614kg&feature=related Isso é apenas a superfície. Mexendo no pântano, muitos outros animais peçonhentos vão emergir.
Escrito por ademir assunção às 14h02
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“CAÊ JÁ EMBOLSOU UM MILHÃO” Título do ótimo texto do Jotabê Medeiros, um dos raríssimos jornalistas que têm coragem (e clareza) de mexer nessa cumbuca. É simplesmente indecente Caetano Veloso faturar dinheiro público para financiar suas turnês (ele se sustenta muito bem no “mercado”). Mas, como lembra Jotabê, Caetano não é o único. Por isso há muitos graúdos fazendo lobby contra as reformas da Lei Rouanet. Se liga - aqui.
Escrito por ademir assunção às 14h50
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VAMPIROS, POETAS E MÚSICOS
Antonio Thadeu Wojciechovski e Carlos Careqa: um encontro impagável e imperdível. Quem conhece os dois, sabe do que estou falando. Quem não conhece, vá ver e ouvir.
Sexta (19), sábado e domingo tem o show Alquimia Paulistana, com Edvaldo Santana, Dona Inah e Kabelo. Cada um faz sua parte e depois os três cantam juntos. Edvaldo vai aproveitar para gravar um cd ao vivo. Sexta e sábado, 21 h. Domingo, 19h. Ingressos a R$ 30 e R$ 15. Teatro Fecap: Av. da Liberdade, 532. Central de vendas: 2198-7719.
Domingo (21) tem stand-up com o poeta carioca Tavinho Paes na livraria Martins Fontes (Av. paulista, 509). 15 horas. Entrada franca.
E hoje (18) tem o lançamento da coletânea O Livro Vermelho dos Vampiros, organizado pelo ótimo escritor, poeta, tradutor e amigo Luiz Roberto Guedes. Com ilustrações de Manu Maltez. Na galeria B_arco (R. Dr. Virgilio de Carvalho, 426 – Pinheiros). A partir das 19h30.
Escrito por ademir assunção às 13h29
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MUSA CHAPANDO NO MARANHÃO Zema Ribeiro publicou uma resenha sobre A Musa Chapada no jornal O Estado do Maranhão, domingo passado. Foi uma das raríssimas que saíram na imprensa. A propósito: há uma resenha sobre o livro parada no Estadão. Foi encomendada mas não publicada. Na Folha de São Paulo também não saiu absolutamente nada.Gozado, né? Ainda existem assuntos incômodos e linguagens dissidentes que simplesmente são varridas pra debaixo do tapete? Censura branca ou pura paranóia? Diga lá, Mister Jones. A resenha do Zema: POESIA CHAPADA EM LIVRO Em A musa chapada, poemas de Ademir Assunção e Antonio Vicente Seraphim Pietroforte ilustrados por Carlos Carah apresentam novas possibilidades para a relação poesia e drogas.
POR ZEMA RIBEIRO* ESPECIAL PARA O ALTERNATIVO Não é novidade a relação entre literatura – ou mais especificamente poesia – e drogas. Não é fácil também criar algo novo nessa relação que não cheire – opa! – a apologia barata, as lições de moral da auto-ajuda ou umbiguismo autobiográfico (para o bem ou para o mal e, às vezes, também com lições de moral baratas).
Em A musa chapada [Demônio Negro, 2008, R$ 20,00 em http://www.sebodobac.com], o encontro dos poetas Ademir Assunção e Antonio Vicente Seraphim Pietroforte e do desenhista Carlos Carah, expande – ops! – o entendimento que se tem sobre o que é “droga” – se à menção do termo você só pensa em maconha, cocaína, crack, merla, heroína, haxixe e similares, que tal acrescentar a TV e alguns de seus programas no drugs hall of fame (principalmente a fé vendida na tela)?: “no canto da sala a TV ligada/ o pastor gritava/ (...)/ o poeta pirava/ “meu deus como pode/ tanta merda enlatada?/ que gente mais troncha/ que vida fodida/ (...)/ o real é a ilusão virtual dos que batem a cara contra o muro””, rima Ademir Assunção em A volta do anjo torto, poema com referências explícitas a Torquato Neto e Raul Seixas, dois malucos geniais.
Dedicado “à memória de Sérgio Sampaio”, e trazendo Itamar Assumpção como epígrafe, o trio dA musa chapada está bem acompanhado. Seja pelos beats, referência obrigatória em se tratando do assunto – e influência confessa dos poetas e do desenhista –, seja pelas personagens que povoam o livro: Lili Maconha, Mister Morfina, a Senhora dos Sonhos, O anjo do ácido elétrico (título de poema de Ademir Assunção), Santa Maria Joana (idem), Johnny Walker e João Bafo de Onça, entre outros, além da música de Miles Davis.
O recado de Antonio Pietroforte é direto em Poligonia do soneto III: “quem diz que a droga mata anda errado/ tampouco, acerta aquele que comenta/ “usuário dá dinheiro a traficante,/ promove, com seu vício, a violência”/ prefiro dar dinheiro pra bandido/ que vende, honestamente, seu produto/ se pago imposto, não recebo nada/ sustento deputado vagabundo/ violenta é a fala da polícia/ que fuça, no meu bolso, feito rato,/ aumenta, com propina, seu salário;/ a erva que se fuma só acalma,/ trabalho mata mais do que cigarro,/ por isso que eu fumo pra caralho!”
Nem um nem outro – nem o desenhista – ligam para o que é (ou não) politicamente correto. Dão seus recados sem transformar sua obra num apático manifesto a favor ou contra nada – a legalização das drogas, por exemplo. O que os autores fazem é apresentar a realidade nua e crua – mesmo em poemas ficcionais –, a inegável realidade da São Paulo paisagem dA musa chapada – mas não pensem que é diferente em outros lugares do mundo, bem aí do seu lado deve ter uma boca de fumo, uma “filial” da cracolândia, lugares simplesmente feios e sujos para a maior parte dos olhares conservadores. A vantagem é que ninguém é obrigado a nada.
Entre o lirismo e a ironia, os poemas de Ademir Assunção e Vicente Pietroforte tão bem ilustrados pelas “lentes manuais” de Carlos Carah são verdadeiros clipes de uma sociedade onde puritanismo é (quase) sinônimo de hipocrisia e, num circo de vaidades, (quase) todos se preocupam somente em consumir (drogas, inclusive) e produzir (por obrigação), sem olhar para o lado (leia-se, para os problemas que as/nos rodeiam), obtendo um pseudoprazer que, infelizmente, por vezes as satisfaz. A musa chapada é um tapa seguro e sonoro nesse bom-mocismo, nesse conformismo. Vai encarar?
*ZEMA RIBEIRO escreve no blogue http://zemaribeiro.blogspot.com
Escrito por ademir assunção às 17h41
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