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ESPELUNCA - blogue de ademir assunção


HOJE EM SÃO LUIZ DO MARANHÃO

 

 

Celso Borges lança novo livro de poemas, com cd encartado e direito a show de poesia com ele e a banda Restos Inúteis. Celso morou um tempão em São Paulo, encheu o saco, voltou para São Luiz e continua agitando. Continua vivíssimo. Grande noite pra vocês, brother.

 



Escrito por ademir assunção às 12h41
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TEXTOS PARA ARRANCAR A CASQUINHA DAS FERIDAS

 

Marcelo Montenegro está escrevendo cada vez melhor – além de ser uma das pessoas mais agradáveis que conheço, um grande amigo. Ele publicou um texto no blogue dele sobre outro amigo querido, o Dr. Paulo de Tharso. Texto sintético e emocionante. Chama-se Mixed Emotions. Quem quiser ler, aqui. E quem quiser ler a indignação a flor da pele do Dr. Paulo, aqui. Gosto de espíritos indignados e talentosos. Apesar das “misérias do cotidiano” (Maiakavoski) me sinto privilegiado em partilhar da amizade de algumas das pessoas mais interessantes da nossa época. 

 

 

*****

 

Ontem fizemos uma reunião na galeria b_arco para acertar os detalhes de um evento para arrecadar fundos para Roberto Piva. Vai ser depois do carnaval. Em breve dou mais detalhes por aqui.

 

João Silvério disse que Piva está animadíssimo com todas as manifestações de solidariedade que estão pipocando por todo o lado. Palavras dele: “Trevisan, me traga notícias boas. Você sabe que notícias boas são curativas”.

 

Lembrando mais uma vez: quem puder fazer doações, a conta bancária do Piva é a seguinte:

 

Banco: Itau

Agência: 0036

Conta: 20592-0

CPF: 565.802.828/00

 

*****

 

Ainda poesia: este é um dos poemas que vou entoar hoje à noite lá no Cidadão do Mundo, em São Caetano do Sul, com o auxílio luxuoso da guitarra de Marcelo Watanabe, para os íntimos, o grande mestre Sashimim:

 

O ESPINHO NO DEDO DE DEUS

 

dia após dia, notícias ruins

detonando a minha cabeça

 

faróis, os olhos vasculhando a madrugada

eu rio, rio de janeiro, eu rio

eu rio todos os risos que me fazem chorar

 

olhos de lobo, faróis acesos na cidade

eu vejo horror nas ruas

bang bang nos becos e nas avenidas

 

e esse seu fogo

é palha, é traque, é truque de cena

 

de um filme que não dá mais pé

 

não venha detonar minha cabeça

nem tente sugar o meu sangue não

 

meu sangue não

meu santo é negro

 

e no peito tenho um bicho preto

com garras de pantera e olho de gavião

 

meu sangue não

meu sangue é de leão

 

tenho no corpo as marcas de chernobyl

tenho no bolso uma bomba que ainda não explodiu

 

meu reino não é nesse mundo

eu sou a pimenta do reino

 

eu sou do mundo eu não sou seu

eu sou o espinho no dedo de deus



Escrito por ademir assunção às 11h55
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POETA: AOS LIVROS

 

Foto: Juvenal Pereira (2004)

Depois da mudança para um quarto melhor, Roberto Piva está bem mais animado. Hoje cedo pediu para o Gustavo levar livros. Os amigos continuam se mexendo para que ele tenha um bom tratamento e se recupere o mais rápido possível. É isso o que interessa.

 

Paulo de Tharso postou um vídeo produzido pelo Grupo Interzona, com Piva lendo o poema Piedade, permeado com a voz de William Burroughs, Jim Morrison e imagens do próprio poeta. Eis o link: http://salvemofelix2.blog.uol.com.br/

 

Amigos estão se mexendo também para fazer uma leitura com o objetivo de arrecadar grana para Piva.

 

 

POESIA E ROCK’N ROLL

 

Nesta sexta, eu, Chacal e Marcelo Montenegro participamos de um bate-papo sobre poesia no 30 Festival ABC do Som, promovido pelo Cidadão do Mundo, em São Caetano. Depois, eu e o guitarrista Marcelo Watanabe fazemos uma palhinha do show Rebelião na Zona Fantasma, seguido do Fábrica de Animais e do JAM Trio. No sábado e domingo tem mais festival. Programação e endereço abaixo.

 


 

No show eu vou ler o poema O olho azul do mistério, que escrevi há 9 anos e dediquei a Roberto Piva.

 

O OLHO AZUL DO MISTÉRIO

 

desço dos céus para beijar

os lábios quentes da fera — desço,

vejo dragões pastando na grama

azul, incêndio nas cortinas

dos apartamentos — desço,

escuto um coro de crianças

bêbadas, vozes batendo no casco

do navio fantasma ancorado

no Cais da Última Utopia — vejo,

sinto na pele os dedos de uma andróide

aflita, quase em pânico, mãos

de neblina, pálpebras que se fecham

toda vez que toco o bico dos seios — escuto,

encaro olho no olho o olho

do Grande Gavião Terena, leopardos

lambem o leite da Via Láctea, saltam

com garras envenenadas sobre

as penugens de Vênus, penetram

o cu da lua, pregas se rompem,

espelhos se estilhaçam e rasgam a carne

dos banqueiros que sugam o vinho

da vida com canudinhos cedidos

pelo senhor McDonald — sinto,

e por isso escrevo, e por isso deixo aqui

palavras escritas na água, na carne

dos que sofrem, escrevo com sangue, escrevo

com porra nas paredes das salas

iluminadas com a luz monótona dos aparelhos

de televisão, escrevo com mijo nos muros

das cidades do Ocidente, convoco hidras,

provoco tumulto, estrelas sentam-se no sofá

e tomam café marroquino, os sentidos

mixam o onde e o quando na câmara

oca de ecos, a pele se arrepia, relógios

praticam saltos ornamentais em piscinas

vazias, neve ao redor dos cabelos, chove

na terra inteira, dedos de açucar tocam

a escama dos peixes, o corpo todo pressente

a presença de um deus, e você finalmente encara

o úmido olho azul do mistério 



Escrito por ademir assunção às 13h06
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PIVA MELHOR

 

Piva já está instalado em condições melhores.

 



Escrito por ademir assunção às 19h25
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PIVA CONTINUA NA ENFERMARIA

 

Roberto Piva continua internado na enfermaria do HC, com mais três doentes.

 

Gustavo, que mora com ele e é a pessoa mais próxima, está acompanhando de perto. Ele disse que Piva está tendo um bom atendimento médico. O poeta e amigo Antonio Fernando de Franceschi pagou uma consulta particular, com um bom médico, quando Piva passou mal, antes da internação. O mesmo médico está acompanhando seu quadro clínico. Gustavo disse também que a situação não é tão precária.

 

Mas está longe de ser boa. Piva terá que fazer uma cirurgia da próstata e provavelmente um cateterismo. A internação deve se prolongar por mais algumas semanas. Ele tem reclamado muito da comida, da televisão ligada até tarde no quarto e de rezas de evangélicos. O horário de visita é de apenas 2 horas e só podem entrar 2 pessoas.

 

*****

 

Gustavo disse que toda a atenção e solidariedade são bem-vindas. Piva vai precisar de grana quando sair do hospital. Quem quiser e puder ajudar, eis a conta dele:

 

Banco: Itau

Agência: 0036

Conta: 20592-0

CPF: 565.802.828/00



Escrito por ademir assunção às 02h36
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PIVA

 

Muita gente mandou email, telefonou ou deixou recado aqui no blogue perguntando notícias sobre Roberto Piva.

 

Conversei ontem à noite com o poeta Celso de Alencar. Há muitos amigos se mexendo, mas o que se sabia é que Piva continuava internado na enfermaria do HC.

 

Ainda não se sabe se houve alguma mudança de ontem à noite para hoje.

 

Celso lembrou também que Piva vai precisar de grana.

 

Qualquer notícia nova eu informo por aqui.



Escrito por ademir assunção às 13h03
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PIVA URGENTE



 

Roberto Piva, um dos maiores poetas brasileiros, está internado na enfermaria do Hospital das Clínicas, em estado precaríssimo. Piva tem 73 anos e sofre de mal de Parkinson. Segundo o poeta Celso de Alencar, que o visitou ontem, ele está num verdadeiro inferno dantesco.

 

Nos últimos anos, Piva teve suas obras completas reunidas pela editora Globo em três volumes: Um Estrangeiro na Legião, Mala na Mão & e Asas Pretas e Estranhos Sinais de Saturno. Sua poesia voltou a circular como um furacão, mas o poeta continuou vivendo em situação precária. É comum os amigos se cotizarem para comprar os remédios que ele precisa para manter os efeitos do mal de Parkinson num nível razoável.

 

Artistas não vivem de elogios.

 

É preciso tirá-lo da enfermaria do HC e transferí-lo para um quarto. Urgente. Isso é o mínimo nesse momento.

 

Ou as palavras do próprio poeta vão se confirmar como uma nefasta profecia?:

 

“O objetivo de toda Poesia & de toda Obra de Arte foi sempre uma mensagem de Libertação Total dos Seres Humanos escravizados pelo masoquismo moral dos Preconceitos, dos Tabus, das Leis a serviço de uma classe dominante cuja obediência leva-nos preguiçosamente a conceber a Sociedade como uma Máquina que decide quem é normal & quem é anormal.”

 

“... criminosos fardados & civis têm o poder absoluto para decidir quem é útil & quem é inútil”.

 

“Enquanto isso, os representantes da poesia oficial & os engomados homens de negócios trocam entre si, numa reciprocidade suspeita, discursos & homenagens estourando de vaidade diante do aplauso de seus concidadãos. O que eu & meus amigos pretendemos é o divórcio absoluto da nova geração dos valores destes neomedievalistas”.



Escrito por ademir assunção às 14h43
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CHACINA

 

Acertaram aquele e o amigo dele

O de blusa listrada com a namorada

O menor correu, seu irmão morreu

O seu pai sumiu, nunca mais se viu

O de short azul, pasto de urubu

Camisa vermelha sobre o peito nu

Dois estão feridos mais sete escondidos

E os outros seis já viraram três

Quem tava do lado também foi queimado

Quem pode escapar não pode falar

Ninguém teve pena, ninguém teve dó

Daquela família só ficou a avó

E daquele corpo, osso dente e unha

Ninguém quer o troco, ninguém testemunha

 

Não deu na TV, nem deu no jornal

Não foi pra cadeia, nem pro hospital

Não teve caixão, não teve funeral

E TEM MUITA GENTE QUE ACHA NORMAL

 

Poema de Arnaldo Antunes. Música de Edvaldo Santana. Gravado no CD Reserva de Alegria.

 

*****

 

Às vezes me afundo

Fico reclamando de tudo

De todo mundo

Bate um desespero

Ver alguém matar alguém

Por meros 30 dinheiros

Fato corriqueiro

Mas não me acostumo

Nem gosto do cheiro

 

Fragmento da música “Z da Questão, Meu Amor”, do mestre Itamar Assumpção. Gravado no cd/lp Sampa Midnight.

 

Os cds de Edvaldo e Itamar não são tão fáceis de encontrar por aí, como são os de Ivete Sangalo, Jota Quest ou CPM22. Por que será? Delírio persecutório?



Escrito por ademir assunção às 10h47
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GELÉIA GERAL? NÃO: MELECA GERAL.

 

Passei dez dias quase incomunicável. Sem celular. Sem jornais. Sem notícias de TV. Não estava na Antártida, nem na Antártica, muito menos no meio da selva amazônica. Estava na Ilha do Cardoso, sul do Estado de São Paulo. E embora tenha uma ou outra televisão por lá, não tinha acesso a nenhuma. Nem queria. E sinceramente não me fazia falta.

 

Voltei no final de semana e dei um rolê pelos blogues que me interessam – e onde fico sabendo de muitas coisas que não saem na imprensa. Um desses blogues é o do Mário Bortolotto, meu amigo de longa data, como sabem todos os que freqüentam essa espelunca. E me chamou a atenção sua resposta a textos publicados na imprensa e no blogue de Maurício Stycer sobre os desdobramentos da tentativa de assalto e dos tiros que quase lhe tiraram a vida.

 

Os freqüentadores desta espelunca também sabem que tenho uma visão bastante crítica do jornalismo que se pratica atualmente – e um tanto negativa em relação ao jornalismo da Folha de São Paulo e da revista Veja, ambos extremamente manipuladores. Não consigo ler nenhum dos dois. Além de manipulador, o jornalismo da Folha é apressado, os textos são ruins. Nem dá vontade de ler. Há uma ou outra exceção. Cada vez mais rara.

 

Sou jornalista. Adoro jornalismo – estou falando de textos com estilo, criativos, grandes reportagens, que mostrem pontos de vista interessantes (fofocas e vida de celebridades não me despertam o mínimo interesse). Eu gosto mesmo é do tipo de jornalismo que praticaram Torquato Neto, Tarso de Castro, Miguel de Almeida, para citar três. Mesmo que esteja exilado da imprensa há alguns anos (embora continue escrevendo nessa espelunca e editando a revista Coyote, junto com Marcos Losnak e Rodrigo Garcia Lopes), me sinto jornalista. E entendo que casos como o que aconteceu com meu amigo Mário tenham interesse jornalístico.

 

Entendo também que textos jornalísticos possam ser escritos com fontes ocultas, com fontes que não queiram se identificar. É o que se chama de sigilo de fonte. Agora, o que me chama atenção no texto “Polícia tem um suspeito de atirar em Bortolotto”, publicado na Folha de São Paulo na sexta-feira passada (15), é que é todo escrito a partir de fontes ocultas. Por quê? É um caso tão sigiloso assim que ninguém queira se identificar?

 

No texto, o repórter Fabio Vitor escreve que confrontado com um suspeito de ter sido o autor dos disparos, Mário se disse incapaz de identificá-lo, por não se lembrar de sua aparência. “Alegou que estava muito bêbado naquela madrugada para conseguir apontar quem quer que fosse como o responsável”, escreve o repórter. E acrescenta: “No entender de policiais, o real motivo de Bortolotto ao se dizer inapto seria o fato de ele ser conhecido no submundo da praça Roosevelt, além de saber que, nesse universo, a delação é tida como imperdoável.

 

É uma afirmação longe de qualquer inocência. Delação? Como assim? Mário passou de vítima a cúmplice? Cúmplice dos próprios tiros que quase tiraram-lhe a vida? Que raciocío maluco é esse? O que os supostos policiais quiseram dizer com isso? Que Mário faz parte do “submundo da praça Roosevelt”? Os atores, atrizes, diretores, poetas, músicos, escritores que freqüentam os bares e teatros da praça são o submundo da Roosevelt? E por que o jornalista não identifica o policial que disse isso? Ele pediu sigilo de fonte? Mas, ora, isso não é uma informação, é uma suposição. E suposições tem autores. Não identificando o autor da afirmação, o repórter levanta uma suspeita, aí sim, contra ele mesmo: será que algum policial disse isso mesmo? Ou ele próprio fez uma suposição e a atribuiu ao “entender de policiais”?

 

Em texto publicado em seu blogue, Mário explica que tinha combinado de dar entrevista tanto à Folha quanto ao Estadão no mesmo dia – quarta-feira que vem. Não quis privilegiar nem um nem outro jornal. Segundo ele, repórteres da Folha insistiram: queriam dar a entrevista primeiro que o concorrente. Depois disso, saíram dois textos em dias seguidos no jornal. Em ambos, informam que “procurado pela Folha, o dramaturgo não quis dar entrevista”. O certo não seria: “procurado pela Folha, o dramaturgo afirmou que dará entrevista à imprensa na próxima quarta-feira”? Óbvio. Regra básica de jornalismo.

 

Mário respondeu ao texto de Fabio Vitor e ao de Maurício Stycer, que repercutiu a matéria em seu blogue. E reclamou, com razão, de estar sendo sacaneado pela Folha. Claro, numa afirmação leviana, de vítima ele passa a ser um comparsa do submundo, no “entender de policiais”, segundo o texto. Em se tratando de Folha de São Paulo, com um longo histórico de sacanagens, distorções, manipulações e arrogância, não há nenhum “delírio persecutório” por parte do Mário – como acusou Maurício Stycer em seu texto, não se poupando de uma gag maldosa: segundo ele, o “delírio persecutório” de Mário seria “explicável, dada as suas condições de saúde”. Sacanagem grosseira.

 

Conheço Stycer. Trabalhamos juntos no Caderno 2 do Estadão nos anos 80. Neste caso, ele pisa feio na bola, ao defender esse tipo de jornalismo. Não entendo quando jornalistas assumem mimeticamente o ponto de vista do patrão. Jornalista, na minha opinião, tem que ser independente, o máximo possível, ao menos, inclusive do próprio patrão. Tem que ser o primeiro a ser crítico em relação ao próprio jornalismo. Tem que correr esse risco. Se perder isso, perde tudo.

 

Mas além do teor do texto publicado na Folha, o que me espanta é a pressão para que uma pessoa ainda convalescente, se recuperando de ferimentos causados por três tiros que quase lhe tiraram a vida, dê entrevistas – ainda mais depois de sua promessa de falar com a imprensa na próxima quarta-feira. É estarrecedor. Chega a ser deplorável.

 

Jornalista tem que dar notícias, entendo. Mas há um limite a ser mantido e esse limite é o respeito à vida alheia.

 

No final de semana vi na GloboNews notícias sobre o terremoto no Haiti. Eu nem sabia do terremoto. As notícias não chegaram na Ilha do Cardoso. Bom, eu vi uma reportagem e fiquei estarrecido com a repórter. Ela mostrava uma pilha de entulhos, sobre os quais estava uma mulher soterrada. Pisava em cima dos entulhos. Dizia que estava ouvindo a voz da mulher e podia ver sua mão, devidamente mostrada pela câmera. Enquanto isso, em vez de tirarem a mulher dali, as pessoas esperavam ela terminar a reportagem. Cara, o que é isso? A pergunta nem mais é: que tipo de jornalismo é esse, mas que tipo de pessoa é essa?  



Escrito por ademir assunção às 22h54
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Poema do meu primeiro livro LSD Nô, que completou 15 anos em 2009 – a idade do meu filho Yan.

 

Foram muitas idas e vindas no ano que se foi. Agora, hora de sumir do mapa. Essa espelunca só reabre na segunda quinzena de janeiro.

 

Que tudo dê certo em 2010. Até o que der errado, que dê errado certo.



Escrito por ademir assunção às 12h42
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BEM-VINDO, BROTHER



Marião saiu do hospital hoje pela manhã. Venceu mais essa batalha.

Ontem ele até deixou um post no blogue dele:

“só pra avisar pros amigos e pra toda rapaziada que tá di ombro comigo. to melhor. queria agradecer a força e as palavras bacanas de incentivo q recebi da maioria. foi du caralho.

to assistindo king kong com minha filha.”

Agora o ano pode acabar.



Escrito por ademir assunção às 16h39
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NEUZA PINHEIRO NO SUPERTÔNICA DE ARRIGO BARNABÉ


 

Neuza Pinheiro foi entrevistada recentemente por Arrigo Barnabé no programa Supertônica, na rádio Cultura. Neuza é uma grande cantora, grande poeta, grande pessoa. Arrigo, nem preciso dizer nada. O programa ficou do caralho. Os dois contam histórias de uma parte fundamental da história da música brasileira. Contam e cantam. Não perca. Eis o link: http://www.radarcultura.com.br/node/33741



Escrito por ademir assunção às 22h05
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ANATOMIA DE UM DESMORONAMENTO



 

Há uns 15 dias sonhei que estava no alto de um morro no Rio de Janeiro. Parecia o Morro do Vidigal. Eu estava bem alto. À minha frente, a mais ou menos uns 100 metros havia uma igreja gigantesca, mais alta do que o ponto em que eu estava. Parecia uma daquelas igrejas de Gaudi. Parecia também com aqueles castelos de areia que a gente faz na praia, uma camada sobreposta a outra. Parecia sólida e bem alta. Mas de repente começou a desmoronar. No primeiro momento, fiquei pasmo. No segundo, fiquei com medo que o entulho chegasse até o ponto em que eu estava (e eu estava bem alto) e me soterrasse. Conforme a igreja ia desmoronando, o entulho ia subindo. Então, comecei a correr em direção ao cume do morro.

 

Agora eu posso ver com mais tranqüilidade os abalos sísmicos que provocaram esse desmoronamento.

 

Entrei neste ano em destroços. Deus meu, foi foda. Em alguns momentos cheguei a pensar que iria sucumbir ao tsunami. Precisei gritar bem alto pra que a dor passasse. Precisei até encarar umas pílulas azuis e umas conversas com uma psicóloga amiga para chegar num equilíbrio razoável – de onde eu pudesse ter forças para voltar a remar.

 

Estou saindo deste ano com o barquinho navegando novamente. Ainda há remendos no casco. Ainda há buracos que precisam ser tapados, nem que seja com chicletes, com durepox, com o que estiver a mão. Mas o barquinho segue em frente, agora em mares menos revoltosos.

 

Sou profundamente grato a todos que me ajudaram na travessia. É bom saber que há amigos e amigas com quem se pode contar quando se está no inferninho mais soturno dos quintos dos infernos.

 

*****

 

Mais ou menos no meio do ano passado eu já estava pressentindo a hecatombe. Escrevi alguns textos, mas acabei não publicando nesta espelunca. Agora que a tempestade já passou, relendo alguns desses textos, resolvi postar aqui – quem sabe indiquem alguns sinais para os outros, quem sabe tenham algum significado apenas para mim. Ei-los:

 

*****

 

DEPRÊ 1

 

Algumas pessoas estão preocupadas comigo. Acham que estou depressivo. Estou mesmo. Ninguém escolhe o que sente. E não é uma sensação das mais agradáveis acordar pela manhã, olhar pela janela e pensar: “caralho, vai começar tudo de novo”. Não sou a fim de tomar remédios, nem de levar minha cabeça para detalhada análise em um divã. Não tenho nada contra as pessoas que usam esses artifícios. Só acho que para mim não funciona. Eu sei o que está errado. Por incrível que pareça, estou “me tratando” com antigas canções de Roberto Carlos. Pelo menos, levantam meu astral sem me deixar dopado e achando que o mundo é assim mesmo e que eu tenho que me adaptar. Não tenho a menor intenção de me adaptar ao circo de horrores que vejo em volta. 

 

Desde o começo eu sempre soube que as coisas são muito mais difíceis para quem não está interessado em se adaptar. Sempre foi. Até aprendi algumas lições de diplomacia ao longo dos anos. Aprendi a não gastar energia inutilmente. Tenho evitado discussões intermináveis. Mas se há alguma coisa que eu não concordo, eu falo. Se o que vejo em volta é um amontoado de absurdos, eu critico. Se querem que eu faça alguma coisa que não quero fazer, não faço. Se tenho que defender meus argumentos, defendo até o fim. O que há de errado nisso? Um homem, ou uma mulher, que não é capaz disso, não é capaz de mais nada.

 

Não estou querendo puxar ninguém “pra baixo”. Basta eu. Mas não vou dar nenhum “up” na minha vida. Não vou sair distribuindo sorrisinhos cordiais por aí. Não vou ficar sentado à mesma mesa de pessoas “espertas e poderosas”, suportando papinhos idiotas, à espera da minha grande chance. Esse tipo de “chance”, para mim, é uma sepultura. Não vou matar com minhas próprias mãos o melhor que tenho em mim. Sem chance.

 

Alguns amigos e amigas que respeito e que gosto já me disseram que sou muito briguento. Levei em consideração. Como escrevi algumas linhas atrás, aprendi um pouco de diplomacia e a evitar discussões inúteis. Mas não consigo entender, muito menos respeitar, um organismo vivo que não brigue contra aquilo que o ameaça.

 

E esse é o ponto: estou vendo a criatividade, o tesão, o inconformismo, a inteligência, a capacidade crítica sendo cada vez mais ameaçadas pelo grande shopping montado em todo canto. Dizem que há espaço para todos. Mentira. O espaço está sendo tomado numa velocidade assustadora pelos trambiqueiros com seus bolsos cheios de dinheiro e seus carrões com o capô levantado tocando um monte de merdas em alto volume. Para esses, com suas idéias fascistas, “só alegria”. Para os outros, a humilhação de catar as migalhas que vão deixando pelo caminho. E ainda agradecer pelas “oportunidades”.

 

Não é pra se deprimir?

 

*****

 

DEPRÊ 2

 

A vida é bastante banal, na maioria das vezes. A menos que você esteja no interior de uma nave espacial, rumo à lua (cagando e mijando em bolsas especiais) ou nos fundos de uma cela da Penitenciária de Pedrinhas, mastigando comida podre e sendo espancado de tempos em tempos. Nenhuma das duas alternativas me parece agradável. Prefiro passar as tardes dormindo. Ou ouvindo Roberto Carlos da fase 69-72 e lendo Bukowski (Factótum). Às vezes acordo de manhã, abro a janela e penso: “caralho, vai começar tudo de novo”. Então eu fecho a janela e volto pra cama. Já já a grana começa a miar. Tudo bem, já sei como é. Ando pensando em assaltar o Banco Que Nem Parece Banco. Sem violência, sem sangue. Apenas entro na agência, faço alguns executivos de refém, libero mulheres grávidas, crianças e velhinhos, ligo para a imprensa e coloco um cartaz na vidraça frontal do estabelecimento: “Sou poeta e preciso de alguma grana pra viver. Aceito uma Bolsa da Petrobras, da Funarte ou um Prêmio Telecom. Abaixem essas metrancas pavorosas. Vamos conversar civilizadamente.” Pronto. De qualquer modo, no mínimo, acho que assim vou me livrar dos pobres coitados do telemarketing que vivem ligando aqui pra casa. Uma hora querem me empurrar um novo e sensacional cartão de crédito do Itau. Outra hora querem doações para a ong do Maguila (é sério). Já me ofereceram até sepultura, em suaves prestações. Por telefone. Não estou brincando. Agradeci e disse à garota que pensaria no assunto mais tarde. "Você sabe, a medicina tem apresentado notáveis avanços. Me liga novamente daqui a 150 anos e a gente volta a conversar sobre o assunto". Chega. Vou ficando por aqui. Preciso voltar pra cama.

 

*****

 

LITHIUM

 

Vontade de fazer nada. Vontade de escrever nada. Só uma tristeza aguda, rondando esse velho coração baleado. Encher a cara não tem adiantado. Ficar sóbrio também não. Não sei mais como brigar contra isso. Onde foi que o vidro se rompeu? Nem os blues do Marião estão conseguindo me animar. Nem os papos com os amigos da Praça Roosevelt. Sensação de estar perdendo algo muito precioso. E a culpa é toda minha. Eu que há anos não sou chegado em televisão tenho passado horas olhando para aquele tubo de vidro.  

 

*****

 

Como escrevi acima, o pior da tempestade já passou. Esses textos são passado. Mas em algum momento eles existiram. Não sou eu que vou me auto-censurar.

 

Não tenho muitos planos para 2010. Apenas um: me concentrar novamente. Estou cansado de dispersão. Estou cansado de energias desperdiçadas. Filtrar melhor o que realmente me interessa. Gestos mínimos e efeitos máximos. E isso depende só de mim.

 

De resto, continuo preferindo “a festa dos amigos do que o banquete do Gigante”, como escreveu Jim Morrison. 



Escrito por ademir assunção às 15h32
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FLASHBECKETT

 

Aposento sem mobília. No centro, numa cadeira de rodas, coberto com um lençol velho, Hamm. Hamm é cego e está imobilizado na cadeira de rodas.

 

Duas latas de lixo à esquerda. Dentro delas, Nagg e Nell. Nagg é o pai de Hamm. Nell é a mãe de Hamm. Os dois perderam as pernas em um acidente de bicicleta nas Ardenas.

 

Clov cuida da ordem no aposento. Pela manhã, fornece excitantes para Hamm. À noite, calmantes. Troca a areia das latas de Nagg e Nell.

 

Hamm é incapaz de levantar-se.

 

Clov é incapaz de sentar-se.

 

Duas janelas ao fundo permitem a Clov vislumbrar o ambiente exterior. O ambiente exterior: nada.

 

1

 

Hamm: Como você se sente?

Clov: Não me queixo.

Hamm: Você se sente em seu estado normal?

Clov (irritado): Já disse que não me queixo!

Hamm: Sinto-me um pouco indisposto. (Pausa) Clov!

Clov: Sim.

Hamm: Você não está farto?

Clov: Sim! (Pausa) Do quê?

 

2

 

Hamm: Clov!

Clov: Sim.

Hamm: Não lhe darei mais nada para comer.

Clov: Então, morreremos.

Hamm: Vou lhe dar apenas o suficiente para mantê-lo vivo. Você estará o tempo todo com fome.

Clov: Então, não morreremos.

 

3

 

Hamm: Vamos rir?

Clov (após refletir): Não estou com vontade.

Hamm (após refletir): Nem eu. (Pausa) Clov!

Clov: Sim.

Hamm: A natureza esqueceu-se de nós.

Clov: Não há mais natureza.

Hamm: Não há mais natureza! Você exagera.

Clov: Ao redor.

Hamm: Mas nós respiramos, mudamos! Perdemos nossos cabelos, nossos dentes! Nosso vigor! Nossa beleza!

Clov: Então ela não nos esqueceu.



Escrito por ademir assunção às 01h48
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4

 

Clov: Vou deixá-lo, tenho mais o que fazer.

Hamm: Na sua cozinha?

Clov: É.

Hamm: Gostaria de saber o quê.

Clov: Olho para a parede.

Hamm: A parede! E o que você vê na sua parede? Letras de fogo? Profecias? Corpos nus?

Clov: Vejo minha luz morrendo.

 

5

 

Clov: Por que esta farsa, dia após dia?

Hamm: Rotina. Nunca se sabe. (Pausa) Esta noite, vi o interior de meu peito. Havia uma ferida enorme.

Clov: Bah! Você viu seu coração.

Hamm: Não, estava viva. (Pausa. Angustiado) Clov!

Clov: Sim.

Hamm: O que está acontecendo?

Clov: As coisas seguem seu curso.

 

6

 

Hamm: Você se lembra do dia em que você chegou aqui?

Clov: Não. Muito pequeno, você me contou.

Hamm: Lembra-se de seu pai?

Clov (cansado): A resposta é a mesma. (Pausa) Você já me fez essas perguntas um milhão de vezes.

Hamm: Amo as velhas perguntas. (Com fervor) Ah, as velhas perguntas, as velhas respostas, não há nada igual! (Pausa) A verdade é que eu fui um pai para você.

Clov: Sim. (Olha fixamente para Hamm) Você foi isso pra mim.

 

7

 

Clov: Vou deixá-lo.

Hamm: Você tem tido aquelas visões?

Clov: Não tanto.

Hamm: A luz da mamãe Pegg está acesa?

Clov: Luz! Como poderia a luz de alguém estar acesa?

Hamm: Apagada!

Clov: Claro que está apagada! Se não está acesa, está apagada.

Hamm: Não, estou falando da mamãe Pegg.

Clov: Mas é claro que se apagou. (Pausa) O que há com você hoje?

Hamm: Sigo meu curso. (Pausa) Ela está enterrada?

Clov: Enterrada! Quem a enterraria?

Hamm: Você.

Clov: Eu! Já não tenho muito o que fazer pra ficar enterrando pessoas?

Hamm: Mas você me enterrará.

Clov: Não, eu não o enterrarei.

 

8

 

Hamm: Vá buscar o óleo.

Clov: Para quê?

Hamm: Para lubrificar as rodinhas.

Clov: Já lubrifiquei ontem.

Hamm: Ontem! O que isso significa? Ontem!

Clov (violento): Isso significa aquele maldito e terrível dia, há muito tempo, antes deste maldito e terrível dia. Uso as palavras que você me ensinou. Se elas não significam mais nada, ensine-me outras. Ou deixe-me permanecer calado.

 

9

 

Hamm: Se você me abandonar, como saberei?

Clov (com vivacidade): Ora, você simplesmente apita, e se eu não vier correndo, significa que o abandonei.

(Pausa)

Hamm: Você não me daria um beijo de despedida?

Clov: Nem me passaria pela cabeça.

(Pausa)

Hamm: Mas você poderia simplesmente estar morto na sua cozinha.

Clov: O resultado seria o mesmo.

Hamm: Sim, mas como eu saberia, se você simplesmente estivesse morto na sua cozinha?

Clov: Bem... mais cedo ou mais tarde eu começaria a feder.

 

10

 

Hamm: Pergunte a meu pai se ele quer ouvir minha história.

(Clov vai até as latas, ergue a tampa da lata de Nagg, inclina-se, olha para dentro dela. Pausa. Endireita-se)

Clov: Está dormindo.

Hamm: Acorde-o.

(Clov inclina-se, acorda Nagg com o despertador. Palavras ininteligíveis. Clov endireita-se)

Clov: Ele não quer ouvir sua história.

Hamm: Eu lhe dou um bombom.

(Clov se inclina. Mesmo jogo)

Clov: Ele quer uma bala.

Hamm: Ele ganhará uma bala.



Escrito por ademir assunção às 01h46
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