Segunda e terça-feira lanço meu novo livro de poemas: A Voz do Ventríloquo.
É o resultado de cinco anos de trabalho.
São poemas escritos, na sua maioria, entre 2006 e 2011.
Poesia tem uma dinâmica diferente da ficção. Pelo menos, para mim. Quando escrevo ficção (tenho dois livros publicados e mais um inédito), pego o fio da meada e não largo o osso até acabar. Geralmente, é um trabalho mais rápido.
Poesia leva tempo.
É como um aquário que vai se enchendo de peixes. Devagar. Até que começa a transbordar e os peixes saem nadando pela sala.
E depois eu abro a porta e eles saem nadando por aí.
Imagino que muita gente se pergunta, como eu: “por que gosto de ver Neymar jogando?”
A resposta mais óbvia: por que é um craque.
E não precisaria mais que isso, mesmo.
Não há teoria que explique um craque.
Mas eu corro o risco de cair no lugar comum e penso com meus botões que gosto de ver Neymar jogando pela leveza com que conduz a bola, pelos dribles inacreditáveis e... quase ia dizer, pela coragem com que encara os marcadores.
Mas me corrijo a tempo: não se trata de coragem. Quando se faz aquilo que se gosta, quando aquilo está no sangue, simplesmente vai lá e faz. Não é bem coragem a palavra. É tesão.
E não há zagueirão, leal ou desleal, que vai intimidá-lo.
Penso nisso depois de ver mais uma vitória do Santos e de ler um texto que Jotabê Medeiros postou há alguns dias no blogue dele.
Não é um texto sobre futebol. É um texto sobre tesão.
O jogo de hoje, quem viu, viu. O texto do Jotabê, quem não leu, pode ler aqui:
Quando eu era pequeno, meu pai gostava de ouvir música caipira. Música caipira de verdade. Eu também gostava. Meu pai vinha do mato. Eu já nascera na cidade. Mas ouvia essas violas e essas vozes cheias de tristeza e gostava pra caralho. Se houver céu (como disse Paulo Leminski), agora meu pai deve estar ouvindo Tonico e Tinoco ao vivo.
Dizem que nos anos 70, Mick Jagger visitou a fazenda de um amigo em Matão, pertinho de Araraquara. E ouviu música caipira pela primeira vez. Pirou com as afinações das violas. Dizem que Keith Richards ouviu uns LPs levados por Jagger para a Inglaterra e também pirou. E isso teria influenciado em parte a sonoridade do álbum Black and Blue – um dos meus preferidos dos Stones.
Hoje pela manhã, ensaio com a banda, que agora tem nome: Fracasso da Raça. Ademir Assunção e banda Fracasso da Raça. O som está tinindo. O time entrosadíssimo. Brincamos: agora podemos enfrentar o Barça.
E amanhã, na madrugada de sábado pro domingo, 4h da madrugada, nos apresentamos na Virada Cultural (Casa das Rosas). Os insones estão convidados: numa época em que todo mundo só quer sucesso, apareçam para conferir nossos melhores fracassos.
Na madrugada de sábado pro domingo eu, Marcelo Watanabe (guitarra, vocais), Caio Góes (baixo) e Caio Dohogne (bateria) fazemos show na Virada Cultural. Vamos mostrar várias do próximo cd. Como “O fim da História em Gotham City” (parceria com Marcelo Watanabe e Caio Góes), “Bang Bang no Sábado a Noite” (com Caio) e “Eu e Você em Londres Naquela Noite das Almas Geladas” (com Watanabe). Às 4 da madrugada, na Casa das Rosas.
Ainda na Casa das Rosas vai rolar outras apresentações bem interessantes:
1) Alice Ruiz e Alzira Espíndola no show “Paralelas”. 20h.
2) Lúcio Agra e o grupo Riverão lêem o “Catatau” de Paulo Leminski na íntegra, durante 12 horas ininterruptas. A partir das 22h.
3) Evandro Affonso Ferreira e Marcelino Freire fazem leituras de seus livros e conversam sobre literatura. 2h
Sábado que vem (dia 28) eu lanço “A Voz do Ventríloquo”, meu novo livro de poemas, na Casa de Cultura Mário Quintana, durante a programação da FestPoa. 16 horas. Uma honra lançar um livro no hotel onde morou Quintana, um dos meus poetas preferidos do modernismo brasileiro.
E na quinta-feira (dia 26), participo de um bate-papo com o grande Nei Lisboa. Na Sala II do Salão de Atos da UFRGS (Campus Central), às 21 horas.
A Festa Literária de Porto Alegre já está rolando, com muitos debates, lançamentos e leituras. Programação completa aqui.
Os lançamentos em São Paulo serão no dia 14 (Mercearia São Pedro) e 15 de maio (Estação Caneca, dentro da programação dos 30 Anos do Cemitério de Automóveis – Artes do Subterrâneo). Com show da minha banda.
O desenho da capa é de Carlos Carah, com arte-final de Vanderley Mendonça. Lançamento Edith Editorial. O livro foi um dos vencedores do Programa de Ação Cultural (ProAc) para edição de livros, da Secretaria de Estado da Cultura.
Duas traduções de fragmentos do Catatau, de Paulo Leminski, para o espanhol. Uma por Reynaldo Jimenez. Outra por Román Antopolsky. Com ensaios crítico. Na nova edição da revista Zunai: aqui
carreiras de pó estiradas numa mesa próxima a estante com livros marxistas
& um free jazz rolando loucamente numa noite interminável
As ninfas & suas vulvas quentes & seu hálito de promessas efusivas
& assim foi que me embriaguei na solidão da gestação
desse poema
& fiz o que tinha que fazer
RASPUTIN TOCANDO JAZZ NO ÁCIDO DESESPERO DA NOITE
Deito-me na vastidão da tua lástima no teu olhar corrompido pelas sementes de pássaros alheios no teu hímem-terra comido pelas baratas ao meio-dia pedaços de pão com telefones riscados & vozes além-túmulo Deito-me na areia dos eletrodos ofuscando canções de ninar vindas do sol rabisco borboletas bêbadas em etrusco soluçando sem parar de compor a mais rica desarmonia inalcançável a tatos nus Deito-me em esplêndida miséria balbuciando teu sagrado nome acariciando ogivas nucleares no meu sexo & despertando de uma longa intransigência rumo aos Campos da Luz
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Conheci Ikaro Maxx em um evento literário em Recife, há uns 5 anos. Convidado para ler um poema, ele se sentou numa cadeira à frente da platéia e permaneceu em silêncio, durante uns dois minutos. O público e os organizadores já estavam incomodados, sem saber o que viria. De repente, ele soltou um uivo, um urro, um berro. Parecia o grito de alguém que acabou de tomar um eletrochoque ou que viu o próprio demônio da poesia. Se levantou e foi embora. A platéia permaneceu atônita. Fiquei impressionado.
Algum tempo depois, apareceu em São Paulo. Fez uma leitura de poemas enlouquecida na Casa das Rosas. Subiu em cima das mesas, quase derrubou um lustre centenário cheio de pingentes de cristal e uivou longos poemas dilacerados.
Volta e meia Ikaro me manda poemas por email.
Herdeiro de Roberto Piva, Allen Ginsberg e Antonin Artaud, ele é uma espécie de Rimbaud contemporâneo. Não faz tipo. Vive a poesia nas entranhas e se atormenta com ela. Mora em João Pessoa, onde provoca freqüentes tumultos. E faz uma poesia de altíssima voltagem. Prestem atenção nesse moleque.
A diferença entre a pancada e tombo está no cambalear das pernas.
As mesmas que vibram durante o ato - teu dia amanhecendo em mim – são as que cedem diante do fato de que tua ausência seja sempre
passagem.
O teu perfeito golpe me pega na rigidez das coxas para o amparo dos braços antes da queda. Mas o tombo chega inelutável, fazendo do susto o sonho
sempre depois do nascer do dia
o nocaute, a lona.
Acaloramento de dentro
Tenho a lava que se eleva, um fervor
na medula.
Nenhuma recomendação de gelo alivia,
quando estou no centro do fogo.
E se chama, ouço queimar.
Não há saída que não seja para o alto,
no céu onde ele está,
acalorando espaços entre braços e dentes.
Quando caí,
ficou um sol inteiro orbitando em mim.
Depois da Guerra
Depois da guerra, regresso.
Um combatente em retirada, que entra pelo portão de uma casa que não é mais sua, embora ainda lhe pertença. As pessoas dali ainda têm o seu sangue, mas acostumaram-se à sua ausência. Os lençóis já não o reconhecem, os colarinhos e coisas não mais têm o seu cheiro.
Ele mesmo, soldado vencido, já não se encontra mais em si. Não se acha, mesmo quando vasculha, apressado, as gavetas do peito e da própria cabeça. Não reconhece suas novas cicatrizes, não lhe parece familiar a textura da pele nem os calos nas mãos. É alguém que, no cansaço da luta, se fragmentou em mortos e feridos, e mudou na velocidade do disparo de cada bala.
Sou eu esse guerreiro.
Sou eu que reapareço, trazendo comigo pedaços de corpos e almas que não me pertencem, mas agora fazem parte da unidade necessária para que eu me recomponha e, no devido tempo, retorne ao meu campo de batalha.